Capítulo 11

Capítulo 11 — Atividade Voluntária e Seus Distúrbios

Livro: Semiologia na Infância e AdolescênciaFrancisco Baptista Assumpção Junior

O capítulo aborda a atividade voluntária, isto é, o conjunto de ações realizadas com finalidade, direção e intenção. A vida ativa inclui tanto aquilo que fazemos quanto aquilo que deixamos de fazer…

Podcast do capítulo

1. Ideia central do capítulo

O capítulo aborda a atividade voluntária, isto é, o conjunto de ações realizadas com finalidade, direção e intenção. A vida ativa inclui tanto aquilo que fazemos quanto aquilo que deixamos de fazer. Nem toda ação, porém, é voluntária.

As ações podem ser classificadas como:

  • Reativas: reflexos simples ou respostas instintivas.
  • Automáticas: hábitos já aprendidos, como andar.

- Afetivas: ações motivadas por estados afetivos, como tristeza ou raiva.

  • Impulsivas: ações diretas, sem reflexão prévia.
  • Voluntárias: ações precedidas por reflexão, escolha e decisão.

Quando o capítulo fala em atividade voluntária, refere-se principalmente à vida conativo-ativa, ligada à vontade, aos motivos, impulsos, tendências, instintos e capacidade de escolha.

2. Elementos da vida conativo-ativa

A vida conativo-ativa inclui:

Motivos

Correspondem ao objetivo da ação, ao “porquê” de determinado ato.

Impulsos

São tendências imediatas para a ação, ligadas à esfera instintiva. Não passam necessariamente por reflexão.

Tendências

São inclinações individuais, influenciadas pela afetividade, que favorecem a execução de determinadas ações.

Instintos

São estímulos internos voltados para necessidades vitais, como alimentação, conservação e reprodução.

Vontade

É a capacidade de exercer ou não uma ação de forma livre. Envolve consciência, deliberação e escolha.

Sugestibilidade

É a predisposição psíquica a sofrer influências externas sem adequada intervenção do juízo crítico.

3. Conceito de vontade

A vontade é apresentada como uma atividade consciente, deliberada e submetida à crítica dos propósitos. Ela não é simplesmente “querer algo”, mas a capacidade de transformar uma intenção em ação após reflexão.

A vontade depende de:

  • inteligência;
  • afetividade;
  • consciência;
  • capacidade de escolha;
  • deliberação;
  • decisão;
  • execução motora;
  • integridade anatômica e fisiológica dos centros nervosos.

O capítulo diferencia a ação voluntária de ações impulsivas, automáticas ou instintivas. Só há verdadeira ação voluntária quando existe escolha, reflexão e decisão.

Quando a vontade deixa de ser consciente e refletida, surgem condutas irrefletidas e ilógicas, movidas apenas por impulsos ou instintos.

4. Fases do processo volitivo

O processo volitivo é dividido em quatro fases:

4.1 Intenção ou propósito

É o momento em que surge uma inclinação para a ação. Aparece o interesse por determinado objeto ou objetivo.

4.2 Deliberação

É a fase de ponderação. O indivíduo considera os prós e contras da ação, analisa possibilidades e reflete sobre os dados envolvidos.

4.3 Decisão

É o momento culminante do processo. A pessoa escolhe uma direção e ultrapassa o limiar da ação.

4.4 Execução

É a fase final, quando os órgãos de execução são acionados e o objetivo passa a ser realizado.

A decisão não basta por si só: a vontade só se completa quando chega à execução.

5. Neurociências da vontade

O capítulo destaca o papel do córtex pré-frontal, por sua função associativa e integradora. Ele recebe informações sensoriais internas e externas e se conecta com áreas motoras e pré-motoras, participando da seleção de respostas adequadas e da previsão de alternativas.

Também são citados:

Hipotálamo

Relaciona-se a comportamentos de luta e fuga, alimentação, sexualidade e mecanismos de prazer.

Hipocampo

É mencionado em relação a questões ligadas à hipersexualidade.

De modo geral, a vontade não depende de uma única área cerebral, mas de uma integração entre cognição, afetividade, motricidade e consciência.

6. Desenvolvimento da vontade

A vontade evolui junto com a inteligência e a afetividade.

Fase sensório-motora

As ações são predominantemente impulsivas ou instintivas. Predominam reflexos e instintos. Ainda não há deliberação verdadeira.

A criança age por tentativa e erro, sem raciocínio elaborado. Ainda não se pode falar propriamente em um processo volitivo, pois não há avaliação consciente de prós e contras.

Fase pré-operatória

Com o surgimento da linguagem, a criança passa a comunicar melhor seu mundo interno e externo.

Na afetividade, aparecem sentimentos mais elementares, como simpatia, antipatia e respeito. Também surgem desejos, mas ainda muito ligados à satisfação imediata de necessidades.

Ainda não se trata de uma vontade plenamente constituída, pois falta deliberação suficiente.

Fase da inteligência concreta

Após cerca dos 6–7 anos, com o pensamento lógico e o início da reflexão, o processo volitivo começa a se organizar melhor.

Os sentimentos morais evoluem e passam a se relacionar com valores como honestidade e justiça. Surge uma vontade mais estruturada, equilibrando tendências, impulsos e ação.

Adolescência

Na adolescência, o processo volitivo se aprimora, apesar da rebeldia aparente. Os valores morais passam a ser apreendidos de forma mais ampla, e a personalidade se estrutura progressivamente.

Vida adulta

Na vida adulta, o processo volitivo atinge maior amadurecimento. O sentimento de dever passa a predominar sobre o prazer imediato. Surge, assim, a ideia de “educação da vontade”.

7. Alterações da vontade

As alterações da vontade podem ser divididas em quantitativas e qualitativas.

8. Alterações quantitativas da vontade

8.1 Hiperbulia

Corresponde ao aumento da vontade, popularmente chamado de “força de vontade”.

Pode ser normal quando está de acordo com os interesses e o bem-estar da comunidade.

Quando patológica, pode aparecer em:

  • personalidades ditatoriais ou fanáticas;
  • alguns quadros maníacos;

- crianças que tentam impor sua vontade sem percepção adequada do ambiente.

8.2 Hipobulia

É a diminuição da vontade. Nela predominam impulsos sobre reflexão.

Pode ser passageira, como em fadiga e depressão leve, ou permanente, como em:

  • alterações de personalidade;
  • quadros esquizofrênicos;
  • delirium;
  • deficiência intelectual.

8.3 Abulia

É a abolição da vontade. O processo volitivo é atingido nas fases de decisão ou execução.

Na abulia, o sujeito pode compreender o que deveria fazer, mas não consegue decidir ou executar a ação.

9. Alterações qualitativas da vontade

Também chamadas de disbulias ou parabulias, são mais graves e francamente patológicas.

9.1 Impulsos patológicos

São ações psicomotoras automáticas ou semiautomáticas, súbitas e incoercíveis.

Podem ocorrer de forma esporádica ou frequente, dirigidas contra objetos ou pessoas, podendo gerar auto ou heteroagressividade.

Impulsos contra objetos

Incluem a frangofilia, com impulso de rasgar roupas, quebrar móveis ou destruir objetos, geralmente sem propósito definido.

Pode ocorrer em deficiência intelectual com agitação, agitações catatônicas e excitação maníaca.

Também se menciona a piromania, impulso de provocar incêndios, descrita como rara.

Impulsos contra pessoas

São atos súbitos, irresistíveis e pouco compreensíveis, podendo ocorrer em transtornos de personalidade, esquizofrenia e quadros conflituais.

Impulsos suicidas

São impulsos autodestrutivos, semelhantes aos impulsos homicidas, podendo ocorrer sob a forma de precipitação de lugares altos ou veículos em movimento.

Podem aparecer em quadros conflituais e transtornos de personalidade, frequentemente associados a ciúme e paixões violentas.

Toxicofilias

Correspondem à tendência interior, incontrolável, de uso continuado e sistemático de substâncias.

Podem começar como hábito e evoluir com dependência física ou psíquica, avidez crescente e sintomas de abstinência.

Cleptomania

É o impulso à apropriação indevida de objetos alheios, independentemente de seu valor.

É descrita mais como ato compulsivo do que puramente impulsivo, pois costuma ser precedida por ansiedade intensa, aliviada após a realização do ato.

10. Estupor

O estupor é a perda da atividade espontânea, atingindo mímica, fala, gesticulação e marcha.

O modelo típico é o estupor catatônico, que pode instalar-se e desaparecer subitamente, com ou sem agitação psicomotora.

Pode ser:

  • tônico;
  • hipertônico;
  • flácido.

Também são mencionados o estupor maníaco, dissociativo e letárgico, este último relacionado a alterações da consciência em síndromes orgânicas.

11. Perseveração e catalepsia

A perseveração corresponde à manutenção prolongada de atividades ou posições.

Catalepsia ou pseudoflexibilidade cérea

É caracterizada por aumento do tônus postural e redução da movimentação passiva. O indivíduo permanece em posições incômodas por muito tempo, sem demonstrar fadiga.

É associada principalmente à esquizofrenia, mas também pode aparecer em quadros dissociativos.

Flexibilidade cérea

É a tendência de conservar posições impostas, como se o corpo permanecesse “moldado” naquela postura.

Pode ocorrer em síndromes extrapiramidais e em lesões orgânicas.

12. Estereotipias

São atitudes bizarras, repetitivas e constantes.

Podem ser:

  • motoras, como movimentos repetitivos das mãos;
  • verbais, como verbigeração;
  • posturais;
  • ritualísticas.

Podem ocorrer em esquizofrenia, transtorno do espectro autista e quadros desintegrativos.

As estereotipias também podem aparecer como tiques motores ou cerimônias compulsivas, com função de aliviar tensão ou angústia, especialmente em transtornos obsessivo-compulsivos.

13. Negativismo

É a recusa obstinada ou resistência às solicitações do ambiente.

Pode ser:

Negativismo ativo

O paciente faz exatamente o contrário do que lhe é solicitado.

Negativismo passivo

O paciente simplesmente se recusa a fazer qualquer coisa.

É descrito como sintoma típico da série catatônica, com caráter primário, incompreensível, imotivado e não deliberado.

O mutismo e a sitofobia também podem ser considerados formas de negativismo, desde que não decorram de motivações delirantes.

14. Reações de último momento

Ocorrem em pacientes negativistas que, subitamente, passam a executar o que havia sido solicitado no momento em que se desiste de convencê-los.

É uma espécie de resposta tardia e paradoxal após resistência inicial.

15. Obediência automática

É o oposto do negativismo.

Caracteriza-se pelo cumprimento passivo e imediato de ordens, sem elaboração ou reflexão.

É uma forma extrema de sugestibilidade patológica. O paciente se comporta como um autômato.

É descrita principalmente em fases finais da esquizofrenia.

16. Reação em eco

É a realização automática ou semiautomática de atos, gestos ou atitudes executadas por outra pessoa, imitados fielmente, sem intenção própria.

Inclui:

  • ecopraxia: repetição de atitudes ou movimentos;
  • ecolalia: repetição da fala;
  • ecomimia: repetição de gestos ou expressões faciais.

Pode ocorrer em esquizofrenia, deficiência intelectual, TEA e transtornos dissociativos.

17. Maneirismo

É a gesticulação amaneirada, artificial ou exageradamente estilizada.

Pode aparecer na linguagem oral, escrita e nos movimentos.

Ocorre em:

  • transtornos dissociativos;
  • esquizofrenia;
  • deficiência intelectual;
  • transtorno do espectro autista.

18. Apraxias

São distúrbios neurológicos focais em que há impossibilidade ou grande dificuldade de executar movimentos intencionais e voluntários, mesmo movimentos simples.

A pessoa pode manter automatismos instintivos e hábitos previamente adquiridos, como andar e comer, mas não consegue realizar ações voluntárias específicas quando solicitadas.

Exemplo do capítulo: dificuldade para abotoar a camisa ou acender um cigarro, apesar do esforço.

19. Agitação e inibição psicomotoras

Agitação psicomotora

Diante de tensão ou trauma emocional, alguns indivíduos reagem com tendência à deambulação ou movimentação excessiva.

A agitação pode aparecer em:

  • síndromes maníacas;
  • agitações catatônicas;
  • psicoses tóxicas;
  • psicoses infecciosas;

- alguns quadros de TDAH, quando a hiperatividade está associada ao déficit atencional.

No TDAH, o capítulo ressalta que a maior implicação clínica é o déficit de aprendizado, e não necessariamente um episódio de agitação psicomotora.

Inibição psicomotora

Caracteriza-se por lentidão extrema, dificuldade e indecisão para executar atos simples e habituais.

Pode ocorrer em:

  • quadros depressivos;
  • estados confusionais;
  • estados estuporosos.

20. Semiologia da vontade

A maior parte dos dados sobre vontade e pragmatismo surge pela observação clínica de tarefas e ordens dadas ao paciente.

O exame deve observar:

  • se o paciente inicia ações espontaneamente;
  • se compreende a solicitação;
  • se decide executar;
  • se consegue executar;
  • se há resistência, negativismo ou obediência automática;
  • se há impulsividade;
  • se há perseveração;
  • se há estereotipias;
  • se há maneirismos;
  • se há agitação ou inibição psicomotora;
  • se há coerência entre intenção e ação.

Resumo final do capítulo

O capítulo entende a vontade como uma função psíquica complexa, que depende da integração entre inteligência, afetividade, consciência, reflexão e execução motora. A atividade voluntária não é apenas movimento: é ação com propósito, escolha e decisão.

O processo volitivo envolve quatro fases: intenção, deliberação, decisão e execução. Quando esse processo se altera, podem surgir quadros quantitativos, como hiperbulia, hipobulia e abulia, ou qualitativos, como impulsos patológicos, estupor, catalepsia, estereotipias, negativismo, obediência automática, reação em eco, maneirismo, apraxias e alterações psicomotoras.

Na infância, a vontade se desenvolve junto com a inteligência e a afetividade. Inicialmente predominam impulsos e instintos; depois, com a linguagem, surgem desejos e sentimentos sociais; mais tarde, com o pensamento lógico e a reflexão, o processo volitivo se organiza melhor. Na adolescência e vida adulta, a vontade se relaciona progressivamente com valores morais, dever, personalidade e projeto de vida.