Capítulo 10

Capítulo 10 — Psicopatologia da Vida Afetiva

Livro: Semiologia na Infância e AdolescênciaFrancisco Baptista Assumpção Junior

O capítulo parte da noção de que a afetividade é uma base fundamental da vida psíquica. Ela não é apenas “sentimento” ou “emoção”, mas participa da organização global da personalidade e influencia …

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1. Ideia central do capítulo

O capítulo parte da noção de que a afetividade é uma base fundamental da vida psíquica. Ela não é apenas “sentimento” ou “emoção”, mas participa da organização global da personalidade e influencia diretamente:

  • percepção;
  • memória;
  • pensamento;
  • vontade;
  • ação;
  • conduta;
  • relação com o corpo;
  • relação com os outros;
  • relação com o mundo.

A afetividade aparece como um dos núcleos mais importantes da vida psíquica porque é por meio dela que o indivíduo aceita, rejeita, ama, odeia, teme, se aproxima ou se afasta da realidade externa e interna.

Segundo a perspectiva apresentada no capítulo, a saúde mental poderia ser pensada, em termos amplos, como a capacidade de amar, entendida não apenas como afeto romântico, mas como possibilidade de ligação com a existência, com os outros, com os valores e com a preservação da vida.

2. Afetividade e corpo

A afetividade está intimamente ligada ao corpo. Por isso, alterações afetivas podem se expressar por manifestações corporais, vegetativas e motoras.

O capítulo destaca que a afetividade se relaciona com:

  • coordenação motora;
  • mímica facial;
  • atitudes corporais;
  • modo de andar;
  • manuseio das mãos;
  • funcionamento vasomotor;
  • secreções glandulares;
  • manifestações do sistema nervoso vegetativo.

Ou seja, o afeto não é apenas uma vivência subjetiva interna. Ele aparece no corpo, no comportamento, na expressão facial, na postura e na forma de interação.

3. Angústia como experiência humana

A angústia recebe grande importância no capítulo. Ela é apresentada como uma vivência profundamente humana, ligada à consciência de finitude, vulnerabilidade e morte.

O texto diferencia a angústia infantil da angústia adulta. Na infância, a angústia não costuma estar ligada à culpa do adulto, mas a uma busca existencial por possibilidades de vida e segurança. Já no adulto, ela pode aparecer como confronto com a limitação, a perda de sentido, a morte, o vazio e a ausência de projeto existencial.

A angústia é descrita como uma vivência que envolve:

  • desprazer;
  • tensão interna;
  • expectativa de perigo;
  • medo de destruição;
  • ameaça à continuidade do ser;
  • sensação de insegurança;
  • vivência de perda do controle ou do sentido.

4. Bases neurobiológicas da afetividade

O capítulo revisa alguns modelos clássicos das neurociências da emoção.

Primeiro, menciona os estudos de Cannon sobre reações de raiva em animais, seguidos por Bard, que relacionou estruturas caudais do hipotálamo e do tálamo às expressões emocionais. Depois, aparece o circuito de Papez, envolvendo hipotálamo, núcleo talâmico anterior, giro do cíngulo e hipocampo. Mais tarde, MacLean propôs o conceito de “cérebro visceral”, atribuindo importância à formação hipocampal.

Também é citado LeDoux, com destaque para a amígdala, especialmente no reconhecimento rápido de estímulos emocionalmente relevantes, como ameaças.

O capítulo reforça que não existe um único “centro da emoção”. As respostas emocionais envolvem uma rede complexa que inclui córtex cerebral, sistema límbico, hipotálamo, sistema nervoso autônomo e respostas corporais.

5. Emoção, aprendizagem e adaptação

O texto também aborda os conceitos de prepotency e preparedness. A ideia é que determinados estímulos são mais facilmente associados a perigo ou ameaça, favorecendo respostas emocionais mais rápidas e intensas.

Isso ajuda a entender por que certos medos parecem mais facilmente aprendidos que outros. Alguns estímulos ameaçadores podem ter maior peso adaptativo, pois em algum momento aumentaram as chances de sobrevivência.

A afetividade é vista, portanto, como inseparável da adaptação. Ela orienta o organismo diante do ambiente.

6. Emoção I, II e III — modelo de Buck

O capítulo apresenta três níveis de resposta emocional:

Emoção I: mais primitiva e corporal. Relaciona-se à homeostase, adaptação corporal, luta, fuga, alarme e preservação do organismo.

Emoção II: pré-linguística. Relaciona-se a códigos expressivos, sinais sociais e comunicação emocional antes da linguagem verbal elaborada.

Emoção III: ligada aos processos cognitivos. Permite identificar, nomear e organizar emoções antes que elas se tornem incontroláveis, favorecendo respostas adaptativas.

A partir disso, o capítulo reforça uma ideia importante: afetividade e inteligência são indissociáveis. As motivações afetivas impulsionam a inteligência, enquanto a inteligência organiza, modula e direciona os impulsos afetivos.

7. Funções timoafetivas

O capítulo divide as funções timoafetivas em quatro grandes grupos:

7.1 Sensações corporais

São sensações ligadas ao corpo e ao funcionamento vital. Podem ser:

Localizadas ou de estado: dor, postura, equilíbrio, frio, sensações sexuais.

Vitais ou gerais difusas: fome, fadiga, asco, desconforto corporal global.

Essas sensações estão relacionadas a órgãos, processos corporais, tendências vitais e impulsos. Muitas vezes, não é fácil separar uma sensação corporal de um sentimento corporal.

7.2 Sentimentos

Os sentimentos podem ser corporais ou psíquicos.

Os sentimentos corporais se misturam às sensações físicas e podem ser agradáveis ou desagradáveis.

Os sentimentos anímicos ou psíquicos não estão localizados no corpo. Eles surgem da personalidade e condicionam a posição geral do indivíduo diante dos acontecimentos.

O capítulo também diferencia:

Sentimentos de estado: refletem a vida interna do indivíduo. Podem ser agradáveis, desagradáveis ou ambivalentes.

Sentimentos valorativos: envolvem avaliação de si ou dos outros. Podem ser autovalorativos ou heterovalorativos, positivos, negativos ou ambivalentes.

7.3 Emoções

As emoções são sentimentos anímicos reativos, geralmente agudos, intensos e desencadeados por motivos externos.

Elas costumam vir acompanhadas de manifestações corporais, como:

  • rubor;
  • taquicardia;
  • sudorese;
  • alterações digestivas;
  • alterações musculares;
  • expressões faciais;
  • mudanças na postura.

Podem ser emoções “puras”, como medo, ódio ou júbilo, ou emoções mistas, como medo-ódio.

7.4 Humor

O humor é mais duradouro que a emoção. Corresponde a um estado afetivo mais prolongado, que influencia o modo geral de conduta do indivíduo.

O humor é o tom afetivo dominante. Pode variar conforme acontecimentos, mas tende a ser mais estável que uma emoção reativa.

8. Desenvolvimento da afetividade

8.1 Modelo de Piaget

O capítulo relaciona o desenvolvimento afetivo ao desenvolvimento cognitivo. Para Piaget, há uma busca progressiva de equilíbrio. Esse desenvolvimento envolve dois processos:

Assimilação: integração do mundo externo às estruturas já existentes.

Acomodação: transformação das próprias estruturas diante das exigências do meio.

O texto reforça que toda conduta humana tem dois aspectos:

  • um aspecto afetivo, ligado às motivações;
  • um aspecto cognitivo, ligado às estratégias.

Ou seja, não há ação puramente intelectual nem puramente afetiva.

8.2 Período sensório-motor

Vai aproximadamente do nascimento aos 18–24 meses.

É marcado pelo desenvolvimento mental ligado à percepção, aos movimentos e ao universo prático da criança.

O capítulo descreve três estágios principais:

No primeiro, predominam os impulsos instintivos elementares, principalmente ligados à alimentação.

No segundo, surgem sentimentos elementares ligados à própria atividade da criança, como prazer, desprazer, sucesso e fracasso. A criança começa a se interessar pelo próprio corpo, pelos movimentos e pelo efeito de suas ações.

No terceiro, ocorre a “escolha do objeto”. Os afetos passam a ser dirigidos inicialmente à mãe, depois ao pai e, posteriormente, a outras pessoas próximas.

8.3 Período pré-operatório

Vai aproximadamente dos 2 aos 7 anos.

Nesse período aparecem sentimentos interindividuais espontâneos e relações sociais de submissão ao adulto. A linguagem modifica profundamente a conduta da criança, favorecendo a interiorização de sinais verbais e sociais.

Surge um jogo de simpatias e antipatias. Também aparece o respeito unilateral pelo adulto, que organiza valores morais ainda dependentes de uma autoridade externa.

Esse é o período da moral heterônoma: os valores são recebidos de fora, sobretudo dos adultos respeitados.

8.4 Período das operações concretas

Vai aproximadamente dos 7 aos 11–12 anos.

Há maior socialização, cooperação e capacidade de descentração. A criança começa a coordenar seu ponto de vista com o dos outros.

Aparecem novos sentimentos morais, com maior organização da vontade e melhor integração do Eu. O sentimento de justiça ganha importância.

A moral deixa de ser apenas unilateral e passa progressivamente a envolver respeito mútuo.

8.5 Período das operações formais — adolescência

Na adolescência, a vida afetiva se afirma pela conquista da própria personalidade e pela inserção na personalidade adulta.

A personalidade começa a se organizar no final da infância, com a estruturação de valores, da vontade, da regulação moral e da hierarquia de tendências.

O adolescente passa a construir um projeto de vida, mas isso também gera conflitos, pois ele se confronta com contradições da vida pessoal, familiar e social.

A agressividade contra o meio familiar, escolar ou social pode aparecer como expressão desse momento de transformação.

9. Modelo de Freud e seguidores

O capítulo apresenta uma leitura psicanalítica do desenvolvimento afetivo.

Para Freud e seus seguidores, a passagem da vida intrauterina para a vida aeróbica é uma transformação importante. O recém-nascido vive inicialmente uma busca de satisfação, centrada no prazer e na autorregulação.

A primeira relação com o mundo ocorre em torno do seio materno, que pode ser vivido como bom ou mau conforme satisfaça ou frustre as necessidades da criança.

A fase oral é apresentada como fase em que o prazer da criança se concentra na cavidade oral e nos lábios.

9.1 Melanie Klein

O capítulo menciona a importância das posições esquizoparanoide e depressiva.

Na posição esquizoparanoide, a criança ainda organiza o mundo de forma parcializada, dividindo o objeto em bom e mau. A agressividade pode ser projetada no seio materno, vivido como objeto perseguidor, enquanto a libido cria o objeto ideal, o “seio bom”.

Na posição depressiva, posterior, a criança começa a reconhecer o objeto como totalidade, não apenas como objeto parcial.

9.2 Fase sádico-anal

A fase sádico-anal aparece ao redor dos 2 anos e vai até aproximadamente 4 anos. O prazer está localizado na mucosa anal, envolvendo evacuação, retenção e excitação.

O capítulo descreve a defecação como fenômeno central para a organização afetiva dessa fase, pois o objeto fecal pode ser vivido com prazer, dor, retenção ou expulsão.

Entre 3 e 5 anos aparecem conflitos ligados ao complexo de Édipo.

9.3 Édipo, latência e adolescência

Quando a criança passa a dizer “eu”, ocorre maior identificação consigo mesma. O corpo sexuado passa a ser vivido dentro de conflitos de identificação com as figuras parentais.

A fase de latência é marcada pela estabilização ou regressão das tendências instintivo-afetivas, com formação do superego e internalização da moral social.

Na puberdade, com o retorno dos impulsos, os conflitos afetivos e objetais voltam ao primeiro plano. O adolescente já vive em um mundo mais inteligível e com melhor diferenciação da consciência do outro, mas também pode apresentar regressões, angústias e conflitos intensos.

10. Modelo de Spitz

Spitz entende o desenvolvimento psíquico a partir das relações objetais. O comportamento da criança se organiza em torno do mundo dos objetos e do investimento libidinal em uma pessoa, especialmente a mãe.

Ele descreve três estágios, dos quais o capítulo mostra principalmente:

Estágio pré-objetal

No recém-nascido, ainda não há objeto nem relação objetal propriamente dita. Observam-se fenômenos de descarga relacionados ao desprazer.

Até cerca de 2 meses, o bebê reconhece o sinal do alimento apenas quando está com fome. Ele ainda não reconhece o seio ou a mamadeira se eles não forem introduzidos na boca.

Nesse período, ocorre um início rudimentar do Ego e a passagem progressiva da passividade para uma atividade dirigida.

Estágio do desenvolvimento libidinal

Entre 8 e 10 meses, aparece a angústia típica do oitavo mês. A criança manifesta angústia quando a mãe se afasta ou quando um estranho se aproxima.

Nesse momento, a mãe já está identificada como objeto da libido.

11. Alterações timoafetivas

Os distúrbios timoafetivos são classificados em:

Quantitativos: ligados à intensidade, duração, estabilidade, humor e reatividade emocional.

Qualitativos: ligados ao aparecimento de sentimentos novos, estranhos ou inadequados.

12. Transtornos quantitativos do humor

12.1 Exaltação do humor

Síndrome maníaca

Caracteriza-se por alegria patológica, visão otimista do mundo, supervalorização do Ego e das próprias capacidades, podendo incluir delírios de grandeza e excitação psicomotora.

Pode ocorrer em doenças afetivas, síndromes mentais orgânicas e mania reativa.

Euforia

É descrita como uma alegria de tipo orgânico, com otimismo aumentado e superestimação do Ego, mas sem agitação psicomotora importante.

Pode ser observada em condições neurológicas e orgânicas, como esclerose múltipla, tuberculose, tumores cerebrais frontais e deficiência intelectual.

12.2 Depressão do humor

Síndrome depressiva

Caracteriza-se por tristeza patológica, pessimismo, subestimação do Ego e das próprias capacidades, podendo aparecer com ideias delirantes de ruína, pobreza, doença ou autoacusação.

Também há inibição psicomotora.

Pode ocorrer em doenças afetivas, depressões sintomáticas e depressões reativas.

13. Angústia na semiologia

A angústia é definida como associação entre sentimento de desprazer e tensão interna, com vivência de perigo ameaçador.

Do ponto de vista semiológico, pode aparecer sob três formas:

Crises

São episódios agudos, de curta duração, em média 5 a 10 minutos, com desconforto pré-cordial, aflição intensa, intranquilidade, desassossego, sensação de morte iminente, reações orgânicas e posterior esgotamento físico ou psíquico.

O exemplo típico são os ataques de pânico.

Equivalentes

São situações em que o desconforto angustioso é substituído por mal-estar localizado em algum órgão ou aparelho, como digestivo, gênito-urinário ou membros.

Resquício

É uma angústia prolongada sem crises. A descarga neurovegetativa intensa desaparece, mas permanece a expectativa ansiosa, a angústia de espera ou o medo de ter medo.

13.1 Etiologias da angústia

O capítulo cita várias possibilidades:

  • angústia conflitiva, ligada à culpa;

- angústia vital ou psicótica, observada no início de processos esquizofrênicos;

  • angústia orgânica, como em infarto ou angina;

- angústia existencial, ligada à consciência de estar no mundo e à morte.

A angústia pode aparecer em pânico, fobias, TOC, doenças afetivas e no início de processos esquizofrênicos.

14. Distúrbios quantitativos da reatividade emocional

14.1 Reatividade exagerada

Caracteriza-se por explosividade e irritabilidade. Pode ser constante ou transitória.

A forma constante pode ter caráter constitucional. A forma transitória pode ocorrer em mania, esquizofrenia catatônica hipercinética, agitação psicomotora secundária a ideias delirantes imperativas e psicoses sintomáticas, como delirium infeccioso.

14.2 Reatividade diminuída

Caracteriza-se por apatia e anestesia afetiva. Pode chegar ao embotamento afetivo-volitivo.

Pode ser passageira ou duradoura, aparecendo em quadros de esgotamento, alterações emocionais, catástrofes, defeito esquizofrênico e rebaixamento mental.

14.3 Reatividade oscilante

Ocorre quando o humor varia entre polos opostos.

14.4 Tipos especiais de reatividade

Retentividade afetiva: o indivíduo guarda mágoas por muito tempo e, depois, um pequeno estímulo desencadeia reação exagerada ou violenta.

Procrastinação de afeto: o indivíduo não expressa o afeto no momento adequado; guarda-o e o manifesta depois, muitas vezes de modo inadequado.

15. Distúrbios qualitativos

As alterações qualitativas da afetividade têm significado mais francamente patológico.

15.1 Neotimias ou sentimentos novos

São vivências afetivas novas, estranhas ou patológicas. O capítulo cita:

Sentimento de perda dos sentimentos: pode ocorrer em depressões graves.

Sentimento de mudança de personalidade: observado na esquizofrenia.

Despersonalização: sentimento de estranheza em relação a si próprio, podendo ocorrer na esquizofrenia e em quadros dissociativos.

Desrealização: sentimento de estranheza ou irrealidade em relação ao mundo.

Sentimentos de inexistência ou morte: o paciente sente que está sem órgão ou que está morto. Corresponde à síndrome de Cotard, podendo ocorrer em depressões graves e esquizofrenia. É rara na infância e adolescência.

Sentimento de transformação cósmica: o paciente sente que ocorrerá uma catástrofe ou que o mundo vai acabar. Pode ocorrer na esquizofrenia.

Sentimento de clarividência: vivência de estado de graça ou êxtase, observável em delírios místicos, psicoses tóxicas e quadros dissociativos.

15.2 Sentimentos inadequados

Incluem:

Reatividade desproporcional: reações mínimas diante de motivos fortes ou reações exageradas diante de pequenos estímulos.

Reatividade paradoxal: reação contrária à esperada, como rir diante de acontecimentos tristes ou chorar quando deveria se alegrar. Pode aparecer em quadros dissociativos e mania.

Caos afetivo: ausência de lógica na manifestação dos sentimentos. Pode ocorrer em psicoses orgânicas e esquizofrenia.

Ambivalência: presença simultânea de sentimentos opostos, como amar e odiar ao mesmo tempo. Pode ser observada na esquizofrenia de início precoce.

16. Afetividade na psicose infantil

O capítulo afirma que modificações tímicas são frequentes em crianças com quadros de psicose infantil.

Podem aparecer como:

  • tendência depressiva;
  • apatia;
  • desinteresse;
  • episódios de hiperatividade;
  • agitação ansiosa;
  • auto ou heteroagressividade;
  • fantasias de morte;
  • fantasias de devoração;
  • manifestações vegetativas;
  • manifestações psicomotoras.

Nos quadros conflituais, a angústia pode ser a manifestação básica, surgindo de forma episódica, aguda ou como fundo crônico que sustenta outros sintomas.

17. Semiologia da afetividade infantil

A avaliação da afetividade infantil deve ser qualitativa e acessível à criança. O capítulo sugere recursos clínicos que permitem observar o mundo interno, a expressão simbólica e os vínculos da criança.

Desenho

Permite que a criança expresse seu modo de estar no mundo, não apenas o mundo real e cotidiano, mas também seu mundo imaginário, fantasmático e existencial.

O desenho pode ser complementado por histórias criadas a partir dele.

Argila

Por ser flexível e maleável, permite adaptação a diferentes fantasias e circunstâncias, favorecendo a expressão dos processos interiores.

Histórias

Histórias inventadas pelo examinador ou pela criança, especialmente com final em aberto, ajudam a explorar fantasias e aspectos do mundo interno.

Jogos dramáticos

Permitem à criança representar papéis, entrar em contato consigo mesma e com o outro, além de sair simbolicamente de seu papel infantil e assumir outros papéis.

Brinquedos

Bonecos, fantoches e brinquedos em geral permitem explorar experiências familiares e grupais. O uso deve ter objetivo clínico, e não apenas recreativo.

RPG

Os role play games podem ser úteis, dependendo da criatividade do avaliador e da idade da criança. São mais indicados para crianças maiores, pré-adolescentes e adolescentes.

Histórias em quadrinhos interativas

O uso de HQs permite criar uma história em conjunto entre examinador e paciente. Isso facilita a interação e cria um novo meio de comunicação, podendo ser útil tanto na avaliação quanto na intervenção.

Resumo final do capítulo

O capítulo entende a afetividade como uma função psíquica central, inseparável do corpo, da cognição, da personalidade e da relação com o mundo. A vida afetiva participa da organização do Eu, da adaptação, da inteligência, dos vínculos e da construção do sentido existencial.

Na infância, a afetividade deve ser compreendida dentro do desenvolvimento global. O capítulo articula Piaget, Freud, Klein e Spitz para mostrar que o desenvolvimento afetivo ocorre junto ao desenvolvimento cognitivo, corporal, relacional e moral.

Do ponto de vista psicopatológico, as alterações afetivas podem ser quantitativas, como mania, depressão, euforia, reatividade exagerada ou diminuída; ou qualitativas, como despersonalização, desrealização, sentimentos de inexistência, sentimentos inadequados, ambivalência e caos afetivo.

Na criança, a semiologia exige cuidado especial, pois a expressão verbal direta pode ser limitada. Por isso, recursos como desenho, histórias, brinquedos, dramatizações, RPG e histórias em quadrinhos podem ser instrumentos importantes para acessar o mundo afetivo infantil.