Capítulo 2
Capítulo 2 — Observação Clinicopsiquiátrica
Livro: Semiologia na Infância e Adolescência — Francisco Baptista Assumpção Junior
O capítulo defende que a observação clinicopsiquiátrica em psiquiatria da infância e adolescência é muito mais do que “conversar com a criança” ou apenas registrar sintomas. Ela envolve uma avaliaç…
Podcast do capítulo
1. Ideia central do capítulo
O capítulo defende que a observação clinicopsiquiátrica em psiquiatria da infância e adolescência é muito mais do que “conversar com a criança” ou apenas registrar sintomas. Ela envolve uma avaliação organizada, sistemática e integrada da criança, da família, do desenvolvimento, do corpo, do exame neurológico, do exame psíquico e dos exames complementares quando indicados.
A observação clínica precisa transformar dados dispersos em uma compreensão coerente do paciente. Ou seja: o examinador não deve apenas anotar que a criança é agitada, que a mãe relata birras ou que há dificuldades escolares. Ele precisa organizar essas informações dentro de uma linha lógica: quando começou, como evoluiu, em que contexto aparece, qual o impacto funcional, o que pode ser desenvolvimento normal, o que pode ser psicopatologia, o que pode ser orgânico, neurológico, genético ou familiar.
Na infância, essa tarefa é ainda mais complexa porque a criança está em desenvolvimento. O sintoma não aparece em um organismo “pronto”, mas em alguém que ainda está formando linguagem, pensamento, autonomia, controle esfincteriano, sociabilidade, sexualidade, comportamento e identidade.
2. Introdução: o que é observação clínica?
A observação clínica inclui duas coisas principais:
o exame do paciente e a descrição dos dados obtidos.
Mas essa descrição não pode ser solta ou desorganizada. Ela precisa seguir uma semiologia coerente, com finalidade diagnóstica clara. O capítulo insiste que a observação só tem valor quando permite compreender o conjunto dos sintomas e sinais em uma sequência lógica.
Isso é importante porque, em psiquiatria, principalmente na infância, os sintomas são predominantemente funcionais e relacionais. Não se trata apenas de encontrar uma lesão, como em algumas áreas da medicina. O psiquiatra precisa captar sinais no comportamento, na linguagem, na interação, no brincar, na expressão corporal, no vínculo com os pais e na maneira como a criança se coloca no mundo.
A expressão usada no capítulo — o “ser no mundo” do paciente — quer dizer justamente isso: compreender a criança dentro de seu modo de existir, se relacionar, brincar, reagir, falar, aprender, depender, resistir, desejar e sofrer.
O exame psiquiátrico infantil, portanto, exige técnica. Não é uma conversa livre sem direção, mas também não é um interrogatório rígido. Deve haver entrevista dirigida, observação, contato verbal e uma posição de escuta teoricamente neutra.
Outro ponto importante: a relação médico-paciente é sempre atravessada por aspectos transferenciais. Isso significa que a forma como a criança e a família se relacionam com o examinador influencia a coleta de dados, o diagnóstico e até a proposta terapêutica.
3. Particularidades da avaliação em psiquiatria infantil
Na criança, a avaliação é mais complexa do que no adulto por três motivos principais.
Primeiro, porque a criança está em desenvolvimento. Então o mesmo comportamento pode ter significados diferentes conforme a idade. Um comportamento regressivo em uma criança pequena pode ter um peso diferente do mesmo comportamento em um adolescente.
Segundo, porque a criança nem sempre sabe explicar por que foi levada à consulta. Muitas vezes ela não reconhece o sintoma como problema. Quem sofre mais com a queixa pode ser a família, a escola ou os cuidadores.
Terceiro, porque a história geralmente vem por intermediários: mãe, pai, avós, professores, babás, cuidadores ou escola. Isso aumenta a complexidade porque cada informante tem seu próprio ponto de vista, seus conflitos, seus medos e seus vieses.
O capítulo destaca que, em muitos casos, a principal coleta de dados é feita com a mãe. Mas essa mãe pode, consciente ou inconscientemente, omitir, exagerar ou minimizar informações. Por isso, o examinador precisa avaliar não apenas a criança, mas também a fidedignidade do informante.
Na psiquiatria infantil moderna, outros informantes também são importantes: escola, cuidadores, professores, profissionais de saúde e familiares. O erro seria confiar cegamente em apenas uma fonte.
4. Avaliação da informante/família
Um ponto muito importante do capítulo é que, ao avaliar a criança, o clínico também observa indiretamente quem traz a criança.
O capítulo sugere observar na mãe ou cuidador:
- expressão muito intensa, inquietação ou agitação;
- pessimismo exagerado em relação à criança;
- condutas de controle excessivo, com ordens repetidas e inúteis;
- tolerância à intervenção de terceiros;
- necessidade de perguntar a outras pessoas sobre o próprio filho;
- enganar a criança para obter alguma conduta;
- ameaçar a criança para conseguir sossego;
- fazer promessas para obter comportamentos;
- incapacidade de conter a criança com firmeza em procedimentos;
- ignorar o exame ou as orientações;
- excesso de mimos.
A ideia aqui não é culpabilizar a mãe ou a família. O objetivo é compreender a dinâmica relacional. Às vezes, a queixa trazida sobre a criança também revela sofrimento, ansiedade, desorganização, ambivalência ou conflito dos cuidadores.
Isso é muito relevante em prova: em psiquiatria infantil, o sintoma pode estar na criança, mas também pode estar no sistema familiar, na escola, na relação ou na forma como o comportamento é interpretado.
5. Queixa e duração
A queixa deve ser descrita com atenção ao início, à forma de aparecimento e à duração.
O capítulo enfatiza que a coleta de dados deve ser feita separadamente com a criança e com os familiares, sempre que possível. Isso permite comparar as versões e verificar se as informações são congruentes.
A criança pode ser levada ao psiquiatra mesmo sem apresentar uma queixa subjetiva. Muitas vezes ela chega porque a família está angustiada, porque a escola encaminhou ou porque houve algum comportamento que preocupou os adultos.
É importante caracterizar:
Quando os sintomas começaram. Se foi desde sempre, isso sugere mais fortemente transtornos do neurodesenvolvimento ou padrões constitucionais/desenvolvimentais.
Se houve fator desencadeante. Por exemplo: morte de familiar, separação dos pais, nascimento de irmão, mudança de escola, bullying, doença, trauma ou perda.
Como foi o início. Agudo, subagudo ou insidioso.
Como foi a evolução. Rápida e destrutiva, lenta, estacionária, em surtos, em crises com remissão posterior, espontânea ou após algum tipo de cuidado.
Qual a forma dos sintomas. Comportamentais, afetivos, cognitivos, vegetativos, motores, alimentares, escolares, relacionais ou do desenvolvimento.
Uma pegadinha importante: o capítulo orienta evitar excesso de termos técnicos na descrição inicial da história. É preferível manter a linguagem do informante, identificando quem relatou cada informação.
6. História da doença atual
A história da doença atual deve detalhar o início e a evolução dos sintomas. Não basta dizer “criança agitada” ou “adolescente deprimido”. É preciso reconstruir a trajetória.
Deve-se investigar:
- início dos sintomas;
- aparecimento de novos sinais;
- frequência das ocorrências;
- mudanças graduais;
- tratamentos já realizados;
- resposta aos tratamentos;
- prejuízo nas atividades do paciente;
- problemas gerados pela conduta;
- cuidados aos quais a criança foi submetida.
O capítulo orienta observar se a manifestação aparece como:
- distúrbio do desenvolvimento;
- alteração do pensamento;
- alteração do humor;
- alteração vegetativa;
- mudança de conduta;
- outro tipo de alteração clínica.
Para prova, guarde a lógica: não basta nomear o sintoma; é preciso caracterizar curso, contexto, evolução, impacto e resposta.
7. Antecedentes familiares
Em psiquiatria infantil, os antecedentes familiares têm grande importância porque muitos quadros têm base biológica, genética, familiar ou relacional.
O capítulo recomenda levantar:
- saúde física e mental dos familiares;
- traços patológicos de conduta;
- doenças psiquiátricas na família;
- idade dos pais;
- número de pessoas na casa;
- condições socioeconômicas;
- condições culturais;
- métodos educacionais;
- métodos de punição;
- dinâmica familiar;
- ocorrência familiar de transtornos.
O heredograma ou genograma é apresentado como uma ferramenta útil para organizar essas informações.
Um ponto central: investigar doença psiquiátrica na família não serve apenas para pensar em hereditariedade. Serve também para entender como a patologia parental pode alterar a dinâmica familiar e, consequentemente, influenciar a criança.
8. Antecedentes mórbidos
O capítulo coloca os antecedentes mórbidos como fundamentais porque a criança é um ser em evolução. A história clínica precisa começar antes mesmo do nascimento.
Gestação e parto
Devem ser investigados:
- se houve pré-natal;
- se a gestação foi a termo;
- apresentação fetal;
- sinais de hipóxia;
- Apgar, especialmente se abaixo de 6 após o quinto minuto;
- circular de cordão;
- peso ao nascer;
- necessidade de reanimação;
- icterícia;
- vômitos;
- cianose;
- edemas;
- sangramentos;
- sonolência;
- convulsões;
- paralisias;
- distúrbios respiratórios;
- dificuldades alimentares.
Isso tem valor porque intercorrências perinatais podem estar associadas a alterações neurológicas, cognitivas, motoras ou comportamentais.
Desenvolvimento neuropsicomotor
O capítulo apresenta marcos do desenvolvimento que devem ser lembrados, mas reforça que não devem ser avaliados de maneira rígida. Eles servem como referência.
Marcos citados:
- primeiro sorriso: por volta de 16 semanas;
- sentar sem apoio: entre 28 e 40 semanas;
- andar: entre 12 e 18 meses;
- primeiras palavras: entre 40 semanas e 12 meses;
- construção de frases: por volta de 2 anos;
- controle esfincteriano anal: por volta de 3 anos;
- controle esfincteriano vesical: entre 4 e 5 anos.
Para prova, isso é muito importante. A lógica é: atrasos nos marcos podem sugerir transtornos do neurodesenvolvimento, deficiência intelectual, síndromes genéticas, quadros neurológicos ou alterações ambientais importantes.
Desenvolvimento familiar, social e escolar
Também se deve investigar o desenvolvimento no meio familiar, social e educacional. Escola e família são pontos básicos para detectar sinais iniciais de distúrbios comportamentais.
Aqui entram perguntas sobre:
- desempenho acadêmico;
- adaptação escolar;
- relação com pares;
- relação com professores;
- comportamento em casa;
- autonomia;
- brincadeiras;
- rivalidade fraterna;
- ciúmes;
- dificuldades de separação;
- rotina;
- sono;
- alimentação.
9. Antecedentes infecciosos, traumas e convulsões
O capítulo destaca a importância de pesquisar antecedentes de:
- doenças infectocontagiosas;
- traumatismo cranioencefálico;
- síndrome convulsiva.
Isso pode ajudar no diagnóstico etiológico ou na identificação de fatores associados a quadros cognitivos, comportamentais ou do desenvolvimento.
Para prova: sempre lembrar que sintomas psiquiátricos em crianças podem ser expressão ou consequência de condições neurológicas, infecciosas, traumáticas, metabólicas ou genéticas.
10. Conduta expressa
A conduta expressa é uma parte essencial da avaliação da criança. A criança é avaliada psiquiatricamente pela forma como se comunica e interage com o mundo.
Essa comunicação ocorre por linguagem, comportamento, corpo, brincar, vínculo e reação ao ambiente.
O capítulo organiza a observação em várias áreas.
Higiene corporal e autonomia
Avaliar cuidados próprios e independência nas atividades de vida diária. Isso inclui banho, troca de roupa, alimentação, higiene e capacidade de realizar tarefas esperadas para a idade.
Na prática, a pergunta é: essa criança tem autonomia compatível com seu desenvolvimento?
Alimentação
Observar:
- seletividade alimentar;
- pica;
- ruminação;
- coprofagia;
- anorexia.
Esses sinais podem aparecer em quadros do neurodesenvolvimento, transtornos alimentares, deficiência intelectual, negligência, ansiedade, autismo ou outras condições clínicas.
Sono
Investigar:
- insônia;
- hipersonia;
- pesadelos;
- terror noturno;
- sonambulismo.
Sono é um eixo muito importante em psiquiatria infantil porque pode estar alterado em ansiedade, depressão, TDAH, TEA, transtornos do humor, trauma e epilepsias.
Sexualidade
O capítulo inclui:
- manipulação corporal;
- masturbação;
- interesse sexual;
- tipificação e definição do papel sexual;
- curiosidade;
- bestialismo;
- jogos sexuais.
Aqui o ponto é avaliar o comportamento sexual conforme idade, desenvolvimento, contexto e eventual exposição inadequada ou abuso.
Sociabilidade
Observar:
- birras;
- timidez;
- inibição;
- isolamento;
- agressividade;
- agressividade auto ou heterodirigida;
- se a agressividade é socializada ou não socializada.
Esse item é essencial para diferenciar dificuldades temperamentais, ansiedade social, TEA, transtornos disruptivos, depressão, trauma e alterações ambientais.
Manipulações corporais
Inclui:
- onicofagia;
- tricotilomania;
- sucção de polegar;
- tiques;
- movimentos estereotipados.
Esses sinais ajudam a pensar em ansiedade, transtornos obsessivo-compulsivos relacionados, transtornos de tiques, TEA e autorregulação sensorial.
Linguagem oral e escrita
Avaliar:
- trocas;
- omissões;
- repetições;
- tom;
- timbre;
- altura;
- ritmo da fala.
Esse ponto é muito importante na infância porque alterações de linguagem podem estar associadas a TEA, TDL, deficiência intelectual, transtornos de aprendizagem, alterações auditivas, quadros neurológicos e dificuldades emocionais.
Atividades domésticas, lúdicas e sociais
Observar:
- relação com familiares;
- ciúmes;
- rivalidade fraterna;
- tipos de brinquedo preferidos;
- relação com outras crianças;
- capacidade de brincar;
- qualidade do brincar.
Aqui vale destacar um ponto prático para a residência: o brincar é uma via privilegiada de exame psíquico infantil. Brincar simbólico pobre, repetitivo ou ausente pode ser sinal de alerta, dependendo da idade e do contexto.
Controle esfincteriano
Investigar:
- enurese primária ou secundária;
- encoprese primária ou secundária;
- incontinência.
A diferença entre primária e secundária é importante. Primária significa que a criança nunca adquiriu controle consistente. Secundária significa perda de uma habilidade previamente adquirida.
11. Exame físico
O capítulo enfatiza que o psiquiatra infantil não pode negligenciar o exame físico. A psiquiatria do desenvolvimento tem interface com neuropediatria, genética e pediatria.
O raciocínio é: muitas síndromes psiquiátricas, cognitivas e comportamentais podem estar associadas a condições orgânicas.
Devem ser observados:
- crescimento e desenvolvimento;
- curvas de peso e altura;
- desenvolvimento puberal;
- perímetro cefálico;
- distância intercantal;
- estigmas disgenéticos.
O capítulo destaca que a presença de três ou mais sinais físicos associados a retardo mental/deficiência intelectual pode levantar suspeita de quadro genético e justificar investigação específica.
Exemplos de alterações físicas citadas
Na cabeça e face:
- macrocefalia;
- microcefalia;
- hidrocefalia;
- fácies alongada;
- fronte alta;
- orelhas grandes;
- nariz pequeno;
- narinas antevertidas;
- base nasal achatada;
- dentes displásicos;
- microftalmia;
- catarata;
- glaucoma;
- íris estrelada;
- fendas palpebrais curtas;
- amaurose precoce.
No sistema nervoso central:
- calcificações;
- neurofibromas;
- convulsões;
- regressão do desenvolvimento;
- ataxia;
- apraxia;
- espasticidade;
- paralisia facial;
- liberação piramidal;
- deficiência auditiva;
- hipotonia.
Na pele:
- manchas café com leite;
- hipopigmentação;
- pele muito clara;
- sinófris;
- cílios alongados;
- hirsutismo.
Em órgãos internos:
- hepatomegalia;
- esplenomegalia;
- transtornos respiratórios.
No esqueleto:
- cifose;
- pescoço curto;
- alterações vertebrais;
- genu valgum;
- curvatura de ossos longos;
- costelas alargadas;
- diminuição de ossos das mãos.
Para prova: quando houver deficiência intelectual, atraso global, TEA com sinais sindrômicos, epilepsia, regressão ou dismorfismos, pensar em investigação genética/metabólica/neurológica.
12. Exame neurológico
O capítulo afirma que o exame neurológico é fundamental na avaliação da criança. Mesmo que o psiquiatra infantil não seja neurologista, ele precisa saber avaliar sinais básicos.
A avaliação neurológica envolve:
Exame do crânio
Observar malformações e medir o perímetro cefálico. Também pode envolver medidas de diâmetros cranianos. Alterações podem sugerir síndromes, malformações ou relação com atraso do desenvolvimento.
Exame da coluna vertebral
Avaliar desvios e malformações.
Exame neurológico propriamente dito
Inclui observação de:
- atitude;
- movimentação estimulada;
- tônus muscular;
- reflexos profundos.
No recém-nascido, são citados reflexos como:
- Magnus de Kleijn;
- retificação corporal;
- Moro;
- preensão;
- sucção;
- marcha automática;
- cutaneoplantar.
O capítulo também cita reflexos profundos de face, membros superiores, tronco e membros inferiores.
Além disso, menciona o Exame Neurológico Evolutivo de Lefèvre, que organiza itens como:
- fala;
- equilíbrio estático;
- equilíbrio dinâmico;
- subir e descer;
- corrida;
- saltar;
- coordenação apendicular;
- coordenação tronco-membros;
- sincinesias;
- persistência motora;
- tônus muscular;
- movimentação reflexa;
- sensibilidade.
A ideia principal: o exame neurológico ajuda a entender o desenvolvimento motor da criança de maneira acessível e pode apontar alterações que modificam totalmente o raciocínio diagnóstico.
13. Exame psíquico
O exame psíquico é apresentado como o ponto capital da avaliação psiquiátrica.
Mas, na infância, ele não pode ser visto como uma fotografia estática. Precisa ser interpretado em perspectiva desenvolvimentista. Ou seja: consciência, atenção, linguagem, pensamento, memória, afeto, humor e comportamento devem ser avaliados conforme a idade e o grau de desenvolvimento.
O capítulo reforça que a doença não deve ser vista apenas como entidade mórbida, mas como um processo que interfere no “ser no mundo” da criança, alterando suas relações com pessoas, objetos, ambiente e consigo mesma.
Outro ponto importante: o exame psíquico deve ser feito separadamente dos pais. O autor prefere realizá-lo antes da entrevista com os pais, para que depois seja possível verificar se as hipóteses levantadas no exame são compatíveis com a história trazida pelos informantes.
Tópicos do exame psíquico citados
Atitude do paciente
Observar:
- fisionomia: triste, alegre, móvel ou rígida;
- cuidados e vestimenta: descuidada, maneirista ou excêntrica;
- reação ao exame: compreensão, oposição ativa, oposição com mutismo ou reticência, indiferença.
Em crianças pequenas, vestimenta pode refletir mais o cuidado parental. Em adolescentes, pode expressar identidade, oposição, pertencimento, isolamento ou modo de se colocar no mundo.
Consciência
Avaliar nível de consciência, clareza, responsividade e presença de rebaixamento ou alterações qualitativas.
Atenção
Observar capacidade de manter foco, alternar foco, sustentar atividade e responder a estímulos.
Memória
Avaliar memória imediata, recente e remota de acordo com a idade.
Sensopercepção
Investigar alterações perceptivas, como ilusões ou alucinações, sempre considerando desenvolvimento, fantasia, brincadeira, medo e contexto cultural.
Pensamento
Observar curso, forma e conteúdo. Em crianças, isso deve ser avaliado por fala, brincadeira, desenhos, narrativa e capacidade simbólica.
Inteligência
Avaliar nível global de funcionamento cognitivo, aprendizagem, capacidade adaptativa e coerência com desempenho esperado para idade.
Linguagem
Observar vocabulário, articulação, fluência, compreensão, pragmática, ritmo, prosódia, escrita e comunicação não verbal.
Orientação no tempo e espaço
Avaliar conforme idade. Crianças pequenas não têm a mesma orientação temporal de adolescentes ou adultos.
Afetividade e humor
Observar humor predominante, modulação afetiva, reatividade, congruência afetiva, irritabilidade, tristeza, ansiedade, labilidade ou embotamento.
Vontade
Relaciona-se à iniciativa, motivação, capacidade de engajamento e direção da ação.
Pragmatismo
Avalia a capacidade de realizar ações com finalidade, adequação e eficiência no cotidiano.
14. Exames complementares
O capítulo é bem claro: exames complementares não substituem o diagnóstico clínico.
Eles servem para esclarecer ou confirmar hipóteses clínicas. Não devem ser solicitados como triagem automática, sem indicação.
A frase central é: a clínica é soberana.
Ou seja: o exame laboratorial, radiológico, neurofisiológico ou psicológico deve responder a uma pergunta clínica. Se não houver hipótese, o exame pode confundir mais do que ajudar.
Exames paraclínicos citados
- fundo de olho;
- hemograma completo;
- raio X de crânio;
- tomografia computadorizada de crânio;
- ressonância magnética de crânio;
- eletroencefalograma, inclusive com privação de sono;
- exame liquórico;
- idade óssea;
- dosagens hormonais tireoidianas;
- dosagem de prolactina;
- screening metabólico para erros inatos do metabolismo;
- cariótipo simples e com bandeamento;
- investigação para X-frágil;
- estudo de DNA;
- sorologias para toxoplasmose, rubéola, sífilis, herpes, citomegalovírus e HIV em casos específicos;
- dosagens metabólicas de cálcio, fósforo, potássio, magnésio e ácido úrico;
- respostas evocadas;
- exames toxicológicos.
Para prova, o ponto não é decorar a lista inteira isoladamente. O mais importante é entender quando pensar nesses exames: atraso global, regressão, convulsões, sinais neurológicos, dismorfismos, suspeita genética, quadro metabólico, sinais infecciosos, alteração do desenvolvimento puberal, sintomas atípicos ou mudança abrupta de comportamento.
15. Exames psicológicos
Os exames psicológicos também não devem ser pedidos ao acaso. Eles servem para avaliar capacidades específicas e podem ajudar em:
- complementação ou confirmação diagnóstica;
- investigação de alterações cerebrais não suspeitadas;
- previsão de riscos em determinados tratamentos;
- planejamento de intervenções;
- reestabelecimento da qualidade de vida.
Avaliação da inteligência
O capítulo cita:
- Terman-Merril;
- WISC;
- WAIS.
O WISC é destacado como teste de inteligência rico em informações, permitindo avaliar processamento da linguagem, raciocínio, atenção, aprendizagem verbal, memória, processamento visual, planejamento, aprendizagem não verbal e velocidade de manipulação de estímulos visuais.
Avaliação de personalidade
São citados:
- Rorschach;
- CAT;
- Pfister.
Provas específicas
São citados:
- Wisconsin;
- Bender;
- Mira-Stamback;
- Piaget-Head;
- Figura de Rey;
- testes específicos de atenção.
O Wisconsin é apresentado como medida de função executiva, envolvendo capacidade de manter e desenvolver estratégia, resolver problemas sob condições mutáveis, usar feedback e modular respostas impulsivas.
A Figura de Rey permite avaliar percepção visual, memória, praxias, organização, cópia e memória.
Escalas de desenvolvimento
São citadas:
- Vineland;
- Gesell;
- Portage;
- Uzgiris;
- Brazelton;
- Denver.
O capítulo ressalta que a psiquiatria da infância e adolescência é eminentemente multidisciplinar. O psiquiatra deve conhecer os instrumentos, mas a escolha, aplicação e interpretação específica cabem a profissionais treinados, principalmente psicólogos.
16. Fechamento do capítulo
A mensagem final do capítulo é que o diagnóstico em psiquiatria infantil precisa ser cuidadoso, organizado e multidimensional.
Não se deve tratar apenas a queixa trazida. A queixa é a porta de entrada, mas o tratamento deve partir de um diagnóstico bem construído.
Um serviço que apenas atende crianças a partir da queixa imediata, sem organizar as informações clínicas, familiares, desenvolvimentais, físicas, neurológicas e psíquicas, corre o risco de oferecer tratamento pouco eficaz ou até danoso.
A boa coleta de dados é o fundamento de um bom plano terapêutico.
Pontos principais para prova
1. Observação clínica não é relato solto
É exame + descrição organizada dos dados, guiada por semiologia e finalidade diagnóstica.
2. Na infância, o sintoma deve ser lido em perspectiva desenvolvimentista
A idade e o grau de desenvolvimento mudam o significado do sintoma.
3. A criança nem sempre é a informante principal
É preciso ouvir criança, pais, escola e cuidadores, comparando versões.
4. A mãe/cuidador também é observado
Não para culpabilizar, mas para avaliar fidedignidade, dinâmica familiar e possíveis vieses.
5. História deve caracterizar início e evolução
Agudo, subagudo, insidioso, lento, rápido, em surtos, com remissão ou estacionário.
6. Antecedentes gestacionais e perinatais são fundamentais
Pré-natal, termo, hipóxia, Apgar, peso, reanimação, icterícia, convulsões e dificuldades alimentares podem ter relevância neuropsiquiátrica.
7. Marcos do desenvolvimento precisam ser conhecidos
Sorriso, sentar, andar, primeiras palavras, frases e controle esfincteriano.
8. Conduta expressa é central
Observar higiene, alimentação, sono, sexualidade, sociabilidade, manipulações corporais, linguagem, brincar e controle esfincteriano.
9. O exame físico não pode ser negligenciado
Procurar crescimento, perímetro cefálico, puberdade, dismorfismos e sinais sindrômicos.
10. Três ou mais sinais físicos associados a atraso/deficiência intelectual levantam suspeita genética
Esse é um ponto bem “cara de prova”.
11. Exame neurológico é parte da avaliação psiquiátrica infantil
Principalmente em atraso, regressão, convulsões, alteração motora, hipotonia, sinais focais ou quadros atípicos.
12. Exame psíquico é o núcleo da avaliação psiquiátrica
Mas precisa ser adaptado à idade e ao desenvolvimento.
13. Exames complementares não substituem a clínica
A clínica é soberana. Exames respondem a hipóteses, não fazem triagem indiscriminada.
14. Avaliação psicológica deve ter pergunta clara
Pode ajudar em inteligência, personalidade, funções específicas, desenvolvimento e planejamento terapêutico.
15. Diagnóstico bom é pré-requisito para tratamento bom
Tratar apenas a queixa pode ser insuficiente ou danoso.
