Capítulo 7
Capítulo 7 — Raciocínio e Juízo Crítico
Livro: Semiologia na Infância e Adolescência — Francisco Baptista Assumpção Junior
Esse capítulo é bem mais filosófico e fenomenológico do que os anteriores. A ideia principal é que, antes de avaliar o raciocínio, o juízo crítico ou o juízo de realidade da criança, precisamos ent…
Podcast do capítulo
A criança e o mundo: “estar no mundo”
1. Ideia central do capítulo
Esse capítulo é bem mais filosófico e fenomenológico do que os anteriores. A ideia principal é que, antes de avaliar o raciocínio, o juízo crítico ou o juízo de realidade da criança, precisamos entender como ela está no mundo.
O “estar no mundo” não é apenas existir biologicamente ou perceber objetos. É a forma como a criança se relaciona com:
- ela mesma;
- o próprio corpo;
- os outros;
- os objetos;
- o espaço;
- o tempo;
- a realidade;
- os significados que vai construindo.
O capítulo tenta mostrar que o exame psíquico infantil não deve ser reduzido a uma lista de sintomas. A criança precisa ser compreendida como um ser em desenvolvimento, em relação contínua com o mundo familiar, social, corporal e simbólico.
A frase-chave do capítulo seria:
Avaliar uma criança é observar como ela constrói seu Eu, sua relação com os outros, sua noção de realidade e sua forma de habitar o mundo.
2. O que significa “estar no mundo”?
O texto parte de uma concepção existencial. O ser humano não é visto como algo fechado, pronto ou completamente definido. Ele é um ser em movimento, em abertura, em possibilidade.
Então, o “ser no mundo” corresponde à relação entre o Eu e o não Eu: o mundo das coisas, das pessoas, dos objetos, da família, da cultura e das experiências.
No caso da criança, isso é ainda mais importante porque ela ainda está estruturando:
- sua identidade;
- sua diferenciação entre Eu e não Eu;
- sua consciência corporal;
- sua relação com o outro;
- sua vivência de espaço;
- sua vivência de tempo;
- sua noção de realidade.
O capítulo resume essa ideia dizendo que o “ser no mundo” envolve dois grandes movimentos:
Coexistir
É existir com outras pessoas. Na criança, isso aparece na linguagem, na conduta, na comunicação, nos vínculos e na forma como ela se relaciona com pais, cuidadores, colegas e examinador.
Existir com os objetos
É relacionar-se com o mundo material. Na criança, isso aparece na forma como ela manipula objetos, brinca, explora o espaço, organiza brinquedos, usa materiais e dá significado às coisas ao redor.
Portanto, quando observamos uma criança, não avaliamos apenas sintomas. Avaliamos modos de relação.
3. A criança como “ser em aberto”
O capítulo reforça que a criança é um ser em desenvolvimento, ainda em construção.
Ela não deve ser vista como um adulto pequeno. Sua forma de compreender o mundo depende de:
- maturação neurológica;
- desenvolvimento cognitivo;
- linguagem;
- experiências afetivas;
- ambiente familiar;
- cultura;
- possibilidades oferecidas pelo meio;
- investimento sociocultural;
- experiências de cuidado.
A criança está sempre “em aberto”, ou seja, em transformação. Por isso, suas perspectivas futuras são fundamentais.
O cuidado infantil não pode ser apenas eliminar sintomas. O objetivo maior é favorecer um desenvolvimento mais harmônico, ajudando a criança a construir um projeto de vida a partir de seus próprios significados.
Esse é um ponto bonito e importante do capítulo:
Cuidar da criança não é só retirar sintomas; é favorecer que ela se torne alguém capaz de construir sentido para sua própria existência.
4. Raciocínio e juízo crítico
O capítulo define raciocínio e juízo como funções psíquicas de alta hierarquia.
Elas permitem:
- estabelecer relações de causalidade;
- comparar ideias;
- fazer análises;
- fazer sínteses;
- usar memórias;
- deduzir conclusões;
- formular julgamentos;
- avaliar caminhos possíveis;
- questionar respostas prontas.
O raciocínio e o juízo crítico dependem de várias funções anteriores:
- consciência;
- atenção;
- memória;
- linguagem;
- sensopercepção;
- inteligência;
- vivência de tempo;
- consciência do Eu.
Ou seja, raciocinar e julgar não são atos isolados. São resultados de uma organização psíquica complexa.
O texto também critica um desenvolvimento rígido e determinista. Quando se leva o raciocínio a modelos pré-fabricados demais, corre-se o risco de substituir a criatividade por esquemas fixos. O bom desenvolvimento do juízo deveria permitir questionamento, busca de novos caminhos e avaliação crítica das possibilidades existentes.
5. Juízo da realidade
O juízo de realidade é a capacidade de avaliar se aquilo que se percebe, sente ou vivencia corresponde à realidade compartilhada.
Mas o capítulo não trata isso de forma simplista. Ele mostra que a realidade não é apenas aquilo que está “fora” do sujeito. A criança vai construindo sua noção de realidade a partir de:
- experiências sensoriais;
- atenção;
- memória;
- comparação com vivências anteriores;
- confirmação social;
- linguagem;
- desenvolvimento cognitivo;
- relação com os outros.
Um exemplo usado no capítulo é a situação de ver algo estranho, como um animal inesperado em uma sala. A primeira atitude seria fixar a atenção, verificar se não é uma ilusão, comparar com memórias anteriores, perguntar aos outros se também estão vendo e, então, formular uma conclusão.
Em outras palavras, o juízo de realidade envolve:
1. perceber algo;
2. estranhar ou reconhecer;
3. comparar com experiências anteriores;
4. checar com os outros;
5. organizar logicamente a experiência;
6. decidir se aquilo é real, ilusório ou estranho.
Na criança, isso depende muito do desenvolvimento. Não se pode exigir de uma criança pequena o mesmo tipo de crítica da realidade esperado em um adulto.
6. Consciência do Eu
O capítulo retoma a noção de consciência do Eu, já discutida no capítulo de consciência.
A consciência do Eu envolve a capacidade de saber que “eu sou eu” e que continuo sendo eu ao longo do tempo, mesmo com mudanças corporais, emocionais e relacionais.
O texto descreve quatro características formais da consciência do Eu:
1. Sentimento de atividade
É a percepção de que eu ajo, sinto, falo, percebo e experimento como sujeito das minhas vivências.
2. Consciência de unidade
É a percepção de que sou um só naquele momento, com unidade interna.
3. Consciência de identidade
É a noção de que continuo sendo o mesmo antes e depois, apesar das mudanças no corpo, no mundo e nas experiências.
4. Consciência do Eu em oposição ao não Eu
É a diferenciação entre mim e o mundo externo, entre o que sou eu e o que pertence aos outros, aos objetos e à realidade externa.
Na criança, essa diferenciação é progressiva. No nascimento, o bebê ainda não tem noção clara de espaço, tempo e separação Eu/mundo. Aos poucos, por meio do corpo, da exploração, da manipulação e das relações de cuidado, vai construindo essa diferenciação.
7. Desenvolvimento do Eu e do mundo
O capítulo descreve um caminho de desenvolvimento:
No início, há uma indiferenciação entre Eu e mundo. A criança pequena vive as experiências de modo muito centrado no próprio corpo e nas sensações.
Depois, gradualmente, ela passa a perceber:
- seu corpo;
- o outro;
- os objetos;
- a permanência dos objetos;
- a diferença entre si e o ambiente;
- a sequência dos acontecimentos;
- o significado das relações.
Esse processo é lento e acompanha o desenvolvimento cognitivo.
A criança passa de um conhecimento mais sensório-motor para uma avaliação mais concreta das relações com o mundo. Mais tarde, com o pensamento abstrato, pode construir projetos futuros e significados mais complexos.
Ponto de prova:
A noção de Eu, mundo, realidade e tempo é construída progressivamente, não está pronta desde o nascimento.
8. Vivência do tempo
O capítulo diferencia o tempo cronológico do tempo vivido.
O tempo cronológico é o tempo medido: horas, dias, meses, idade, calendário.
O tempo vivido é subjetivo. É a forma como o indivíduo sente e organiza sua existência entre passado, presente e futuro.
Na criança, a vivência do tempo se desenvolve gradualmente.
No início, não há uma ordem temporal clara. Existem experiências corporais e sensoriais dispersas, como:
- fome;
- saciedade;
- espera;
- prazer;
- desconforto;
- contato visual;
- contato tátil.
A coordenação temporal vai sendo construída progressivamente, junto com a noção de objeto permanente e com a estruturação do universo pessoal.
Um ponto muito interessante do capítulo:
Até cerca de 7 anos, a criança pode confundir crescimento com envelhecimento. Para ela, muitas vezes, a pessoa mais velha é simplesmente a pessoa maior.
Depois dessa idade, a noção de envelhecer começa a se separar da noção de tamanho. A criança passa a construir uma noção mais propriamente temporal, ligada à ordem do nascimento, sucessão, cronologia e, posteriormente, significado existencial do tempo.
9. Patologias acerca do Eu
O capítulo descreve alterações relacionadas à consciência do Eu. Elas são difíceis de avaliar em crianças, porque dependem do desenvolvimento da identidade, da linguagem e da capacidade de descrever experiências internas.
9.1 Despersonalização
É o sentimento de estranhamento em relação a si mesmo. O sujeito sente como se estivesse separado de si, ou como se observasse uma transformação do próprio Eu.
Pode estar associada a desrealização, quando o mundo externo também parece estranho, artificial ou irreal.
Na criança, pode aparecer em contextos psicóticos ou em situações relacionadas a transformações corporais, como a puberdade.
O exemplo do capítulo descreve um adolescente que estranha as mudanças puberais do próprio corpo, especialmente o aparecimento de pelos, dizendo que já não se reconhece como ele mesmo.
9.2 Perda da própria corporeidade
Corresponde à perda da certeza do próprio existir corporal. Pode aparecer de forma delirante, como em ideias de destruição da própria pessoa, fim do mundo ou inexistência.
Na infância, o texto considera isso raro. Algumas experiências podem aparecer mais como transferência de medos e sentimentos para seres reais ou imaginários do que como verdadeira perda da corporeidade.
9.3 Perda da certeza lógica de quem se é
Aqui há perplexidade, estupor e perda do sentido de ser. A criança ou adolescente pode tentar organizar essa experiência angustiante por meio de:
- movimentos repetitivos;
- estereotipias;
- verbigeração;
- ecolalia;
- ecopraxia;
- rituais rígidos;
- ideias delirantes de influência ou possessão.
9.4 Perda da unidade lógica
O indivíduo não se percebe como uma unidade coerente. Pode sentir ambivalência, divisão interna ou autonomia de partes do corpo ou do psiquismo.
Pode aparecer em quadros esquizofrênicos e psicoses tóxicas.
9.5 Perda da diferenciação Eu/não Eu
Há perda da fronteira entre o Eu e o mundo externo. O paciente pode se isolar em um mundo autístico, com estranhamento, dificuldade de comunicação e perda da realidade compartilhada.
O capítulo relaciona esse fenômeno a quadros esquizofrênicos, psicoses tóxicas e também discute sua complexidade em relação ao autismo.
9.6 Perda da identidade do Eu
Pode variar desde sentimento de estranheza até incerteza sobre o próprio existir, podendo evoluir para identidade delirante.
É descrita principalmente em quadros esquizofrênicos.
10. Patologias acerca da realidade
O capítulo faz uma ressalva importante: em crianças muito pequenas, aquilo que parece alteração da realidade pode ser, na verdade, uma realidade ainda não estruturada.
Isso é especialmente relevante nos transtornos do espectro autístico e nos quadros de retraimento, nos quais pode haver coexistência alterada e relação peculiar com o mundo.
A estruturação da realidade exige pensamento concreto suficiente para:
- construir hipóteses;
- testar hipóteses;
- comparar resultados;
- verificar se a experiência é compartilhável.
Então, não se deve buscar um juízo de realidade adulto antes do momento adequado do desenvolvimento.
Ponto importante:
Na criança, nem toda relação estranha com a realidade é perda de realidade; pode ser uma realidade ainda em processo de estruturação.
11. Patologias do vivenciar o tempo
O capítulo descreve algumas alterações da experiência temporal.
Aceleração do tempo
O tempo parece passar mais rápido. Pode ocorrer em:
- reações catatônicas;
- psicoses tóxicas;
- mania.
Lentificação do tempo
O tempo parece parado ou extremamente lento. Pode ocorrer em:
- grandes depressões;
- esquizofrenia;
- estados de estupor.
O texto ressalta que grandes depressões são raras na criança pequena.
Perda da realidade do tempo
O sujeito vive a existência como momentânea, com desligamento entre passado e futuro. Pode estar associada a:
- despersonalização;
- desrealização;
- sono;
- reações exógenas agudas;
- depressões graves;
- esquizofrenia;
- transtornos do espectro autístico;
- quadros dissociativos.
Transtornos das categorias do tempo
Há deformação da proporção entre passado, presente e futuro, com mistura entre essas dimensões.
Pode ocorrer em:
- deficiência intelectual profunda;
- sonhos;
- reações exógenas;
- uso de drogas;
- esquizofrenia;
- transtornos do espectro autístico.
Na criança, avaliar isso é muito difícil, porque a própria vivência temporal ainda está em construção.
12. Semiologia
A semiologia desse capítulo é muito baseada na observação da criança em atividade.
12.1 Desenho
O desenho é visto como forma de comunicação e linguagem. Ele pode expressar:
- vivências pessoais;
- estruturação do Eu;
- esquema corporal;
- concepção do mundo;
- relação com a realidade;
- organização afetiva;
- aspectos psicóticos ou autísticos;
- alterações da forma;
- distorções;
- mutilações;
- personagens bizarros;
- sentimentos de vazio;
- estruturação obsessiva ou formal;
- pouca personalização.
O desenho da figura humana pode mostrar como a criança estrutura o próprio Eu e o próprio corpo. Mas o capítulo alerta que a produção gráfica também depende de cultura, treino, desenvolvimento e aspectos neurológicos. Então não deve ser interpretada de forma isolada ou simplista.
12.2 Brinquedos
Brinquedos são úteis para avaliar:
- esquema corporal;
- orientação espacial;
- orientação temporal;
- relação com objetos;
- organização do pensamento;
- capacidade simbólica;
- estruturação do mundo.
Podem ser usados:
- bonecos desmontáveis;
- jogos de encaixe com figuras humanas;
- quebra-cabeças;
- bonecos com partes do corpo;
- blocos de madeira;
- construção de casas;
- relógios;
- ampulhetas;
- sequências de figuras;
- palitos;
- jogos de construção.
12.3 Sinal do espelho
O capítulo menciona o chamado “sinal do espelho”, observado também em adultos com esquizofrenia.
Consiste em o paciente olhar-se minuciosamente no espelho, explorando o rosto ou o corpo para verificar sua persistência ou transformação.
Esse sinal pode ser observado em alguns casos de:
- transtorno do espectro autístico;
- esquizofrenia.
12.4 Testes e provas padronizadas
O capítulo cita alguns instrumentos que podem auxiliar a exploração:
- teste de ritmo de Mira-Stamback, para estruturas temporais;
- teste de Benton, para prosopagnosia/reconhecimento de faces;
- testes de faces de Baron-Cohen, para reconhecimento de emoções e afetos, especialmente úteis em TEA.
13. Pontos principais para prova
1. “Estar no mundo” é relação
Não é só existir. É coexistir com pessoas e existir com objetos.
2. A criança é um ser em desenvolvimento
Sua identidade, realidade, tempo e relação com o mundo ainda estão sendo estruturados.
3. O objetivo do cuidado não é só eliminar sintomas
É favorecer desenvolvimento harmônico e construção de significados pessoais.
4. Raciocínio e juízo são funções superiores
Dependem de consciência, memória, atenção, linguagem, sensopercepção, inteligência e experiência.
5. Juízo de realidade é construído
A criança aprende a verificar se uma experiência é real, ilusória, pessoal ou compartilhada.
6. Consciência do Eu tem quatro eixos
Atividade, unidade, identidade e oposição Eu/não Eu.
7. Tempo vivido é diferente de tempo cronológico
A criança constrói gradualmente a noção de passado, presente, futuro, idade e envelhecimento.
8. Até cerca de 7 anos
A criança pode confundir envelhecer com crescer em tamanho.
9. Alterações do Eu
Incluem despersonalização, perda da corporeidade, perda da unidade, perda da diferenciação Eu/não Eu e perda da identidade.
10. Cuidado na avaliação da realidade infantil
Nem toda vivência estranha é psicótica; pode refletir imaturidade do desenvolvimento ou estruturação peculiar do mundo.
11. Desenho e brincadeira são instrumentos semiológicos
Permitem observar corpo, Eu, mundo, espaço, tempo, realidade e vínculos.
12. TEA aparece várias vezes no capítulo
Principalmente em relação à coexistência alterada, diferenciação Eu/não Eu, sinal do espelho, reconhecimento facial e leitura de afetos.
14. Esquema de revisão rápida
Ser no mundo
Eu + não Eu Pessoas + objetos Coexistir + existir com Linguagem + conduta + manipulação do mundo
Juízo de realidade
Perceber → estranhar → comparar com memória → checar com outros → organizar logicamente → concluir
Consciência do Eu
Atividade Unidade Identidade Eu versus não Eu
Tempo
Tempo cronológico = medido Tempo vivido = subjetivo/biográfico Na criança: construído progressivamente
Patologias do Eu
Despersonalização Perda da corporeidade Perda da certeza de quem é Perda da unidade Perda Eu/não Eu Perda da identidade
Patologias do tempo
Aceleração Lentificação Perda da realidade do tempo Mistura passado/presente/futuro
Semiologia
Desenho Brinquedos Espelho Sequências temporais Reconhecimento facial Leitura de emoções
15. Roteiro de podcast / aula falada
Hoje vamos revisar o capítulo 7, sobre raciocínio, juízo crítico e a criança no mundo.
Esse é um dos capítulos mais filosóficos do livro. Ele parte da ideia de “estar no mundo”. Esse termo pode parecer abstrato, mas, na prática clínica, significa observar como a criança se relaciona consigo mesma, com o próprio corpo, com os outros, com os objetos, com o tempo, com o espaço e com a realidade.
A ideia central é que a criança não deve ser avaliada apenas por sintomas isolados. Ela precisa ser compreendida como um ser em desenvolvimento, que ainda está construindo seu Eu e sua maneira de habitar o mundo.
O capítulo diz que o “ser no mundo” envolve duas dimensões principais: coexistir e existir com os objetos.
Coexistir é existir com outras pessoas. Na criança, isso aparece na linguagem, na conduta, no vínculo, na comunicação e na forma como ela se relaciona com pais, cuidadores, colegas e examinador.
Existir com os objetos é relacionar-se com o mundo material. Na criança, isso aparece na brincadeira, na manipulação de objetos, na exploração do espaço e no modo como ela dá significado às coisas.
Por isso, quando examinamos uma criança, estamos observando modos de relação. Não estamos apenas buscando sintomas.
O capítulo também enfatiza que a criança é um ser em aberto. Ela ainda está em formação. Sua identidade, sua noção de realidade, sua consciência corporal e sua vivência de tempo ainda estão se organizando.
Então o objetivo do cuidado não é apenas eliminar sintomas. O objetivo maior é favorecer um desenvolvimento mais harmônico, para que a criança se torne alguém capaz de construir um projeto próprio a partir de seus significados pessoais.
Depois o capítulo fala de raciocínio e juízo crítico.
Raciocínio e juízo são funções psíquicas superiores. Eles permitem estabelecer relações de causalidade, comparar ideias, fazer análise, fazer síntese, usar a memória e chegar a conclusões.
Mas essas funções não aparecem isoladas. Elas dependem de consciência, atenção, memória, linguagem, sensopercepção, inteligência e desenvolvimento.
O juízo de realidade é a capacidade de avaliar se aquilo que estou percebendo corresponde à realidade compartilhada.
Por exemplo, se vejo algo estranho em uma sala, primeiro fixo a atenção. Depois verifico se não é uma ilusão. Em seguida, comparo com experiências anteriores. Posso perguntar se outras pessoas também estão vendo. Só então organizo uma conclusão.
Na criança, essa capacidade ainda está em desenvolvimento. Por isso, não podemos exigir dela o mesmo juízo de realidade de um adulto.
O capítulo retoma a consciência do Eu.
A consciência do Eu envolve quatro aspectos: sentimento de atividade, consciência de unidade, consciência de identidade e diferenciação entre Eu e não Eu.
Sentimento de atividade é saber que sou eu quem age, sente, fala e percebe.
Consciência de unidade é sentir que sou um só naquele momento.
Consciência de identidade é perceber que continuo sendo o mesmo ao longo do tempo, apesar das mudanças.
E a oposição Eu/não Eu é a capacidade de diferenciar o que sou eu do que é mundo externo, objeto ou outra pessoa.
Na criança, tudo isso é construído progressivamente. No início da vida, o bebê ainda não tem noção clara de Eu, espaço e tempo. Aos poucos, por meio do corpo, da exploração, da manipulação e das relações de cuidado, ele começa a perceber o próprio corpo, o outro e os objetos.
O capítulo também fala da vivência do tempo.
Tempo cronológico é o tempo medido: horas, dias, idade, calendário.
Tempo vivido é outra coisa. É a forma como a pessoa sente o tempo, organizando passado, presente e futuro.
Na criança pequena, essa vivência ainda é fragmentada. Inicialmente, existem experiências corporais e sensoriais: fome, saciedade, espera, contato, prazer e desconforto.
Aos poucos, a criança estrutura a noção de sequência, permanência do objeto, antes e depois.
Um ponto importante é que, até cerca de sete anos, a criança pode confundir crescimento com envelhecimento. Para ela, muitas vezes, a pessoa mais velha é simplesmente a pessoa maior. Depois, a noção de envelhecer começa a se separar da noção de tamanho.
O capítulo também descreve patologias da consciência do Eu.
A primeira é a despersonalização. É o sentimento de estranhamento em relação a si mesmo. O sujeito pode sentir que está separado de si ou que observa o próprio Eu se transformar. Pode vir associada à desrealização, em que o mundo externo também parece estranho ou irreal.
Outra alteração é a perda da própria corporeidade, quando há perda da certeza do próprio existir corporal. Pode aparecer de forma delirante, como ideias de destruição da própria pessoa ou fim do mundo.
Há também a perda da certeza lógica de quem se é, com perplexidade e estupor. Alguns pacientes tentam se organizar por estereotipias, verbigeração, ecolalia, ecopraxia, rituais ou delírios de influência.
A perda da unidade lógica ocorre quando o sujeito não se percebe como uma unidade coerente. Pode haver sensação de divisão interna ou autonomia de partes do corpo ou do psiquismo.
A perda da diferenciação Eu/não Eu ocorre quando há perda da fronteira entre o Eu e o mundo. O paciente pode se isolar em um mundo autístico, com estranhamento e dificuldade de comunicação.
E a perda da identidade do Eu pode variar desde um sentimento de estranheza até uma identidade delirante, sendo descrita principalmente em quadros esquizofrênicos.
Depois o capítulo fala das patologias do tempo.
Na aceleração do tempo, o tempo parece passar muito rápido. Pode ocorrer em mania, psicoses tóxicas e reações catatônicas.
Na lentificação, o tempo parece parado ou extremamente lento. Pode ocorrer em grandes depressões, esquizofrenia e estupor.
Na perda da realidade do tempo, o sujeito vive uma existência momentânea, com desligamento entre passado e futuro. Isso pode estar associado à despersonalização e desrealização.
E nos transtornos das categorias do tempo, há mistura entre passado, presente e futuro. Isso pode ocorrer em deficiência intelectual profunda, sonhos, intoxicações, uso de drogas, esquizofrenia e transtornos do espectro autístico.
Por fim, o capítulo aborda a semiologia.
O desenho é visto como forma de comunicação e linguagem. Ele pode mostrar como a criança estrutura seu Eu, seu corpo e sua relação com o mundo. O desenho da figura humana pode revelar esquema corporal, distorções, mutilações, alterações de forma, personagens bizarros, sentimentos de vazio ou organização excessivamente rígida.
Mas o capítulo alerta: não se deve interpretar desenho de forma isolada. Ele também depende de desenvolvimento, cultura, treino e aspectos neurológicos.
Brinquedos também são úteis na avaliação. Bonecos, quebra-cabeças, encaixes, blocos de madeira, figuras humanas, relógios e sequências de figuras podem ajudar a avaliar esquema corporal, orientação espacial, orientação temporal e organização do pensamento.
O capítulo menciona ainda o sinal do espelho, em que o paciente se olha repetidamente e minuciosamente, explorando o rosto ou o corpo para verificar sua persistência ou transformação. Isso pode aparecer em alguns casos de transtorno do espectro autístico e esquizofrenia.
Também podem ser usados testes de ritmo, reconhecimento de faces e leitura de emoções, especialmente em crianças com suspeita de transtorno do espectro autístico.
A ideia final do capítulo é que raciocínio e juízo crítico não são apenas funções lógicas. Eles dependem de como a criança constrói o próprio Eu, o mundo, o tempo, a realidade e os vínculos.
A frase para guardar é:
Na infância, avaliar o juízo crítico é avaliar como a criança está no mundo: como ela se percebe, como percebe o outro, como organiza a realidade e como constrói sentido para suas experiências.
