Capítulo 9
Capítulo 9 — Linguagem
Livro: Semiologia na Infância e Adolescência — Francisco Baptista Assumpção Junior
O capítulo apresenta a linguagem como uma das atividades cerebrais mais elaboradas, sustentada por bases sensório-motoras, mas que ultrapassa o plano motor e passa a exercer função simbólica.
Podcast do capítulo
Resumo detalhado
1. Conceito geral de linguagem
O capítulo apresenta a linguagem como uma das atividades cerebrais mais elaboradas, sustentada por bases sensório-motoras, mas que ultrapassa o plano motor e passa a exercer função simbólica.
Do ponto de vista psiquiátrico e psicológico, a linguagem:
- é um conjunto de signos;
- expressa pensamento e juízo;
- funciona como meio de comunicação inter-humana;
- organiza a experiência sensorial e mental;
- traduz estímulos externos em palavras e símbolos;
- permite descrever fatos e objetos, transmitir conhecimento e regular condutas.
O texto enfatiza que a linguagem não é apenas fala. Ela envolve:
- comunicação social;
- expressão de vivências;
- organização da experiência interna;
- mediação entre o pensar e o mundo.
A função simbólica é central: a experiência vivida passa a ser representada por imagens, representações, palavras e símbolos. Assim, a linguagem aparece como característica profundamente humana e vinculada às atividades nervosas superiores.
2. Bases neuropsicológicas e teoria de Pavlov
O capítulo utiliza a formulação pavloviana para diferenciar dois sistemas:
a) Primeiro sistema de sinalização
- Está presente em humanos e animais.
- Relaciona-se ao contato mais direto com o mundo externo.
- Envolve reflexos desencadeados por agentes externos, ligados a:
- instintos,
- tendências,
- vida afetiva e emocional.
b) Segundo sistema de sinalização
- Desenvolve-se no ser humano.
- Relaciona-se aos lobos frontais.
- Permite:
- abstração,
- generalização,
- elaboração simbólica.
Nesse sentido:
- a linguagem, enquanto “somente palavras”, aproxima-se do primeiro sistema;
- a linguagem, enquanto função simbólica, pertence às atividades superiores do segundo sistema.
Nos animais, o sistema comunicacional é rudimentar e expressa emoções simples. Já no homem, a linguagem é criativa: a partir de número finito de palavras e regras, produz-se quantidade potencialmente infinita de frases e significados, tanto na fala quanto na escrita.
3. Desenvolvimento da linguagem na criança
O texto destaca que o desenvolvimento normal da linguagem sofre influência de vários fatores.
3.1. Fatores genéticos
Têm papel importante no estabelecimento dos diferentes estágios do desenvolvimento linguístico.
3.2. Qualidade do meio social
A aquisição da fala e a qualidade da linguagem se ligam a vários elementos do ambiente:
- classe social;
- tamanho da família;
- nascimentos múltiplos;
- sexo;
- privação de estímulos;
- lar bilíngue.
O capítulo cita, por exemplo:
- crianças de classe média tenderiam a melhor desenvolvimento, sobretudo após os 3 anos;
- crianças de famílias grandes poderiam evoluir mais lentamente;
- meninas tenderiam a desenvolver a linguagem mais cedo;
- crianças isoladas ou institucionalizadas poderiam apresentar atraso;
- em lares bilíngues, a criança costuma adquirir ambas as línguas.
3.3. Fatores físicos
Entre os fatores físicos, o texto chama atenção para:
- retardo do crescimento intrauterino;
- otite média de repetição no primeiro ou segundo ano de vida.
Essas condições são apontadas como causas frequentes de atraso ou prejuízo no desenvolvimento da linguagem.
4. Aquisição da linguagem: marcos evolutivos
O capítulo organiza vários marcos do desenvolvimento.
Recém-nascido e primeiras semanas
- O bebê nasce com vocalizações primitivas, como choro e grito.
- Aprende gradativamente a diferenciar vozes, especialmente a da mãe.
- Por volta da sexta a oitava semana, começa a emitir arrulhos e movimentar os lábios em resposta à fala materna.
Em torno do 2º mês
- Começa a reconhecer, de forma ainda primitiva, a face humana.
Por volta dos 3 meses
- A produção oral torna-se mais imitativa.
- Surge uma espécie de esquema “conversacional” com a mãe.
Por volta dos 4 meses
- Os sons começam a se diferenciar melhor.
- Surgem variedades de vocalizações.
- Vogais e consoantes tornam-se mais distinguíveis.
- Aparece a estrutura silábica.
Entre 10 e 12 meses
- A criança passa a proferir palavras conhecidas com maior clareza.
Após as primeiras palavras
- Há aumento rápido da qualidade e da quantidade da linguagem.
- Nessa fase, a criança compreende mais do que consegue expressar.
Durante o 2º ano de vida
- Inicia a combinação de palavras, formando orações curtas de 2 a 3 palavras.
- O texto cita que, por volta dos 18 meses, a criança entende cerca de 150 palavras e fala aproximadamente 50.
Entre 3 e 5 anos
- Começa a compreender:
- substantivos abstratos,
- adjetivos de dimensão,
- palavras de orientação espacial.
- A criança torna-se também mais consciente de si mesma e começa a constituir seu próprio Eu.
- O capítulo destaca que uma criança de 3 anos já pode produzir sentenças completas.
Entre 3 e 7 anos
- A linguagem ainda é muito marcada por:
- desejos,
- perguntas,
- frustrações,
- imaginação.
Entre 7 e 10 anos
- A criança passa a tomar maior consciência da própria linguagem e do próprio pensamento.
- Desenvolve noções de:
- número,
- classe,
- gênero.
- A linguagem se estrutura de forma mais lógica.
Entre 10 e 12 anos
- Ocorre maior maturação intelectual, associada ao pensamento abstrato.
Puberdade
O texto sustenta que as mudanças linguísticas dependem do desenvolvimento cognitivo e dos processos de aprendizagem, fixando-se mais plenamente na puberdade, quando se consolidam a localização e a dominância cerebral.
Além disso, o capítulo retoma a ideia de período crítico para aquisição de linguagem: se a criança não adquire linguagem de forma adequada até o começo da segunda década de vida, depois disso haveria grande dificuldade para aquisição plena.
5. Neurociências da linguagem
O capítulo revisa os modelos clássicos de localização cerebral da linguagem.
Área de Broca
Broca propôs que a linguagem era habitualmente controlada pelo hemisfério cerebral esquerdo, especialmente por uma área no lobo frontal esquerdo, depois chamada de área de Broca.
Lesão nessa área leva a quadro de:
- fala não fluente,
- dificuldade importante para falar,
- com compreensão relativamente preservada.
Isso corresponde à afasia de Broca ou afasia motora.
Área de Wernicke
Wernicke observou que lesões em região do lobo temporal esquerdo, próxima à superfície superior, também afetavam a linguagem.
Sua lesão leva a:
- discurso fluente,
- porém com compreensão pobre.
Isso corresponde à afasia de Wernicke.
Outras formas de afasia
O quadro do capítulo ainda menciona outras síndromes, como:
- afasia de condução / global (conforme a classificação do quadro),
- afasia transcortical motora,
- afasia transcortical sensorial,
- afasia anômica.
A ideia central é que a linguagem depende de redes cerebrais, e não apenas de dois pontos isolados, embora Broca e Wernicke permaneçam modelos clássicos fundamentais.
6. Valor semiológico da linguagem
O texto enfatiza que o discurso do paciente tem valor semiológico enorme, pois permite observar:
- o encadeamento linear e temporal dos significantes;
- a emissão fonemática;
- a organização do discurso;
- aspectos morfológicos e sintáticos.
Na criança, déficits de linguagem podem decorrer de:
- déficits sensoriais,
- déficits intelectuais,
- dificuldades de processamento,
- fatores afetivos.
Mas o capítulo observa que muitas alterações também aparecem em crianças com inteligência normal.
7. Classificação dos distúrbios de linguagem
O capítulo classifica os distúrbios da seguinte forma:
1. Que afetam a produção de sons (disfonias)
2. Que afetam a articulação (dislalias e disartrias)
3. Que afetam o ritmo
4. Que afetam o aprendizado da linguagem
5. Que afetam a escrita e a leitura
6. Que afetam a aquisição da linguagem (disfasias)
8. Principais distúrbios descritos
8.1. Disfonias
Na verdade, o texto ressalta que não são propriamente distúrbios da linguagem, mas da voz.
Relacionam-se a:
- alterações funcionais ou orgânicas da laringe e palato mole;
- obstruções nasais;
- doenças do SNC;
- doenças neuromusculares.
8.2. Dislalias e disartrias
Dislalia
É uma articulação defeituosa, com:
- omissão,
- substituição,
- deformação dos fonemas.
O capítulo cita alguns subtipos:
- Rotacismo: alteração na pronúncia do R;
- Sigmatismo: dificuldade com sons sibilantes;
- Gamacismo: dificuldade com fonemas guturais;
- Lambdacismo: dificuldade na pronúncia do L.
Pode ocorrer em:
- déficits intelectuais,
- déficits sensoriais,
- alterações anatômicas de língua, lábios, dentes, nariz, palato, úvula e laringe,
- regressão à linguagem infantil,
- fixação em padrões infantis.
O texto também lembra que existe uma dislalia normal do desenvolvimento, isto é, transitória e compatível com a maturação infantil.
Disartria
Refere-se à dificuldade em articular palavras por comprometimento motor dos músculos da fala, como em:
- paresia,
- paralisia,
- ataxia,
- traumatismo cranioencefálico,
- tumores do SNC,
- lesões periféricas.
8.3. Alterações de ritmo: gagueira (tartamudez)
A gagueira é definida como distúrbio da fala caracterizado por:
- repetições,
- bloqueios,
- interrupções da emissão dos fonemas.
Pode apresentar:
- forma clônica → repetição prolongada de fonemas;
- forma tônica → parada/bloqueio da emissão.
O texto destaca que:
- é mais frequente e persistente no sexo masculino;
- geralmente se inicia entre 2 anos e meio e 5 anos;
- fatores psicológicos têm papel importante;
- muitas vezes se associa a elementos ansiosos, sobretudo de tipo fóbico ou obsessivo.
8.4. Distúrbios que afetam o aprendizado da linguagem
Mutismo
É a ausência de palavra articulada.
Causas citadas:
- surdez congênita ou adquirida precocemente;
- deficiência intelectual grave;
- psicoses da infância;
- transtornos do espectro autístico;
- mutismo seletivo, como reação defensiva ou agressiva diante de determinadas situações/pessoas que provoquem temor.
Atraso na aquisição
Pode aparecer em:
- deficiência intelectual,
- déficits sensoriais auditivos,
- doenças neurológicas precoces,
- carência de estimulação,
- hospitalização ou institucionalização prolongada,
- superproteção familiar.
Surdez verbal / afasia auditiva
Corresponde à incapacidade de compreender o significado das palavras.
Nesses casos:
- a criança pode até pronunciar fonemas,
- mas atribui significados inadequados,
- produz sons pobres e pouco variados,
- não utiliza a linguagem de modo comunicativo pleno.
O texto menciona ainda a possibilidade de criação de uma linguagem própria, chamada idioglossia.
8.5. Distúrbios adquiridos da linguagem: afasias
A afasia é definida como perturbação da linguagem com perda da capacidade simbólica necessária para a troca de ideias.
Ela compromete:
- compreensão,
- expressão,
- elaboração do pensamento.
Características mencionadas:
- déficit de compreensão verbal,
- déficit de expressão,
- pobreza de espontaneidade,
- dificuldade de habilidade comunicacional,
- mutismo,
- alterações articulatórias.
O capítulo enfatiza que:
- abaixo de 10 anos, o quadro tende a ser mais grave;
- entre 10 e 14 anos, os problemas articulatórios são menos frequentes;
- é importante lembrar a síndrome de Landau-Kleffner, que pode se confundir com quadros do espectro autístico.
Afasia sensorial / receptiva
- incapacidade de compreender a linguagem dos outros.
Afasia motora / expressiva
- dificuldade de expressão por meio da palavra falada ou escrita.
Se a lesão cerebral ocorre antes da aquisição completa da linguagem, a criança pode perder a fala e precisar reaprendê-la quase do início.
8.6. Hiperlexia
A hiperlexia é descrita como:
- habilidade especial para identificar palavras escritas,
- acompanhada de dificuldade de compreensão da leitura.
Pode associar-se a:
- hiperatividade,
- apraxia,
- atraso do desenvolvimento da linguagem.
O texto a relaciona a alguns casos do espectro autístico, especialmente em quadros antes chamados de síndrome de Asperger.
8.7. Alterações de prosódia
Aprosódia / hipoprosódia
- perda ou diminuição da modulação afetiva da fala;
- voz monótona, monocórdica;
- pode haver também dificuldade em compreender a prosódia da fala do outro.
Relaciona-se especialmente ao espectro autístico.
Hiperprosódia
- aumento da ênfase na inflexão da fala;
- pode ser observada em quadros de mania.
8.8. Alterações na altura/volume da voz
- Hiperfonia: aumento do volume da voz.
- Hipofonia: redução do volume da voz.
O capítulo relaciona essas alterações a quadros do espectro autístico e menciona hipofonia também em esquizofrenias de início precoce.
8.9. Alterações de velocidade
- Taquilalia: aumento da velocidade da expressão verbal.
- Bradilalia: diminuição da velocidade da expressão verbal.
Geralmente acompanham alterações de pensamento correspondentes.
8.10. Expressão verbal
Logorreia
- aumento importante da expressão verbal;
- o paciente fala o tempo todo;
- é difícil interrompê-lo;
- pode dificultar o diálogo.
Pode aparecer em:
- quadros ansiosos,
- deficiência intelectual,
- alguns quadros do espectro autístico,
- mania.
Oligolalia
- oposto da logorreia;
- diminuição da expressão verbal.
Pode ser vista em:
- deficiência intelectual,
- quadros depressivos.
8.11. Alterações no conteúdo da linguagem
Ecolalia
Repetição em eco de palavras:
- imediatamente ouvidas (ecolalia imediata),
- ou anteriormente ouvidas (ecolalia retardada).
Palilalia
Repetição involuntária da última palavra dita pelo próprio paciente.
Verbigeração
Repetição monótona e sem sentido comunicativo de palavras ou frases.
Mussitação
Fala sussurrada, quase sem movimento dos lábios, de forma incompreensível.
Neologismos
Palavras novas criadas pelo paciente, sem significado comum.
Solilóquios
O paciente fala sozinho.
Pedolalia
Forma infantilizada de falar.
Fala pedante
Linguagem rebuscada, com maneirismos e uso de palavras pouco usuais para a idade.
O texto relaciona várias dessas alterações a:
- transtornos do espectro autístico,
- quadros catatônicos,
- esquizofrenias de início precoce,
- quadros ansiosos.
9. Semiologia da linguagem na criança
A avaliação da linguagem infantil deve pesquisar:
Vocabulário
Perguntas sobre:
- objetos do cotidiano,
- roupas,
- profissões,
- temas da vida diária.
Gramática
Observar:
- uso de artigos definidos e indefinidos,
- substantivos,
- adjetivos,
- verbos.
Fluência verbal
Avaliar:
- elaboração de frases,
- períodos,
- pequenas histórias,
- diálogos.
Crianças em idade escolar
Pesquisar:
- processo de alfabetização,
- reconhecimento das letras do alfabeto,
- ortografia,
- compreensão de pequenos textos.
Desenho como instrumento intermediário
O capítulo dá valor ao desenho como forma de acessar:
- narrativa derivada da figura,
- percepção da fala,
- linguagem propriamente dita.
Pontos principais para memorizar
1. Funções da linguagem
- Expressa pensamento e juízo.
- Media a relação entre sujeito e mundo.
- Organiza experiências internas.
- Permite comunicação social.
2. Desenvolvimento normal
- 6–8 semanas: arrulhos.
- 3–4 meses: diferenciação crescente dos sons.
- 10–12 meses: primeiras palavras claras.
- 2º ano: frases de 2–3 palavras.
- 3 anos: sentenças completas.
- 7–10 anos: linguagem mais lógica.
- 10–12 anos: pensamento abstrato mais consolidado.
3. Fatores que interferem
- Genéticos
- Meio social
- Privação de estímulos
- Bilinguismo
- Fatores físicos (ex.: IUGR, otite média de repetição)
4. Áreas cerebrais clássicas
- Broca → fala não fluente, compreensão relativamente preservada.
- Wernicke → fala fluente, compreensão prejudicada.
5. Distúrbios importantes
- Dislalia
- Disartria
- Gagueira
- Mutismo
- Atraso de linguagem
- Afasias
- Hiperlexia
- Alterações de prosódia, velocidade e conteúdo da linguagem
