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Desenvolvimento cognitivo da infância à adolescência segundo Jean Piaget

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Os quatro estágios do desenvolvimento cognitivo segundo Piaget, com aplicações clínicas e limitações contemporâneas — leitura organizada em página principal e quatro seções expansíveis (uma por estágio).

Como a criança organiza a realidade

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A teoria do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget é um dos modelos mais influentes da psicologia do desenvolvimento. Seu objetivo não era apenas descrever quais conhecimentos a criança adquire em cada idade, mas compreender como se modifica, ao longo do desenvolvimento, a própria estrutura utilizada para pensar, interpretar experiências e resolver problemas.

Para Piaget, a criança não é um adulto com menor quantidade de conhecimento. Ela apresenta formas qualitativamente diferentes de organizar a realidade. Dessa maneira, determinados erros infantis não decorrem necessariamente de falta de inteligência, desatenção ou desconhecimento, mas da estrutura cognitiva disponível naquele momento do desenvolvimento.

Piaget e Bärbel Inhelder organizaram o desenvolvimento cognitivo em quatro grandes estágios: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal. Os estágios seguem uma sequência geral, mas as idades são aproximadas e não devem ser interpretadas como limites rígidos ou critérios diagnósticos.

Como a criança constrói o conhecimento

A teoria piagetiana é construtivista. Isso significa que o conhecimento não é entendido como uma simples cópia da realidade transmitida pelo adulto. A criança participa ativamente da construção do conhecimento por meio da interação com objetos, pessoas e situações.

Piaget descreveu alguns processos fundamentais para explicar essa construção.

Esquemas

Os esquemas são estruturas organizadas de ação ou pensamento utilizadas para interpretar e responder às experiências. No início da vida, são predominantemente sensoriais e motores — sugar, agarrar, olhar, alcançar objetos. Com o desenvolvimento, tornam-se progressivamente mais complexos e passam a incluir representações mentais, conceitos, categorias e estratégias de resolução de problemas.

Assimilação

A assimilação ocorre quando a criança incorpora uma experiência nova a um esquema que já possui. Por exemplo, uma criança que aprendeu a chamar o cachorro de “au-au” pode inicialmente utilizar o mesmo nome para outros animais de quatro patas: está tentando compreender o estímulo novo a partir de uma categoria já conhecida.

Acomodação

A acomodação acontece quando os esquemas existentes precisam ser modificados porque não explicam adequadamente a nova experiência. Ao perceber que o gato possui características diferentes do cachorro, a criança reorganiza seu conhecimento e constrói uma nova categoria.

Equilibração

A equilibração corresponde à busca de uma organização cognitiva mais estável. Quando uma experiência não se encaixa nos esquemas existentes, surge um desequilíbrio; a reorganização desses esquemas permite que a criança alcance uma compreensão mais complexa.

Assimilação e acomodação funcionam de maneira complementar: a criança utiliza aquilo que já sabe, mas também modifica seu pensamento diante das experiências que desafiam seus conhecimentos anteriores.

Estágios — clique para expandir

1. Estágio sensório-motor — do nascimento aos 18–24 meses

Característica central

Nesse período, o bebê conhece o mundo principalmente por meio dos sentidos e das ações motoras. Olhar, tocar, sugar, agarrar, levar objetos à boca, deslocar-se e manipular o ambiente constituem formas de investigação. No início, a atividade é predominantemente reflexa; progressivamente, o bebê passa a repetir ações, coordená-las e utilizá-las de maneira intencional para alcançar objetivos.

Reações circulares

Piaget utilizou o conceito de reação circular para descrever a repetição de uma ação que produziu algum resultado interessante.

  • Reações circulares primárias: o interesse está mais relacionado ao próprio corpo. O bebê pode repetir um movimento dos lábios ou das mãos porque a sensação lhe chama a atenção.
  • Reações circulares secundárias: a ação passa a se dirigir ao ambiente. O bebê pode balançar repetidamente um chocalho porque percebe que o movimento produz som.
  • Reações circulares terciárias (final do 1º ano e 2º ano de vida): a criança começa a variar deliberadamente suas ações para observar os diferentes resultados — deixar cair um objeto de alturas distintas, bater um brinquedo em superfícies diferentes, testar novas formas de alcançar aquilo que deseja.

Essas repetições não devem ser vistas apenas como comportamentos estereotipados. Em condições típicas, constituem importantes experiências de aprendizagem sobre causalidade, espaço, movimento e propriedades dos objetos.

Intencionalidade e resolução de problemas

Ao longo do estágio, as ações tornam-se menos reflexas e mais dirigidas a objetivos. A criança passa a afastar um obstáculo para alcançar um brinquedo, puxar uma toalha para aproximar um objeto ou utilizar um instrumento simples para obter algo que está fora do alcance. Essa mudança representa a coordenação progressiva de diferentes esquemas de ação.

Permanência do objeto

Uma das principais aquisições desse período é a permanência do objeto: a compreensão de que pessoas e objetos continuam existindo mesmo quando não estão diretamente acessíveis à percepção. Nos primeiros meses, um objeto completamente escondido pode deixar de ser procurado; progressivamente, o bebê passa a procurá-lo. A permanência do objeto não surge de forma instantânea — desenvolve-se gradualmente e pode ser influenciada pela complexidade da tarefa, pela familiaridade com o objeto e pela forma como o experimento é apresentado.

Representação mental

No final do estágio sensório-motor, a criança começa a formar representações mentais mais estáveis. Isso permite que ela antecipe ações, imite comportamentos observados anteriormente e resolva alguns problemas sem depender exclusivamente de tentativas motoras imediatas. A imitação diferida — reproduzir posteriormente uma ação que observou antes — é um exemplo dessa capacidade.

Implicações clínicas

Na avaliação de bebês e crianças pequenas, a observação direta do comportamento é especialmente importante. A criança pode não conseguir responder verbalmente, mas demonstra suas capacidades por meio do olhar, da exploração, da imitação, da busca por objetos, da atenção compartilhada e da utilização funcional dos brinquedos. É necessário considerar que o desenvolvimento sensório-motor depende de oportunidades de exploração, integridade sensorial e motora, interação com os cuidadores e condições ambientais.

2. Estágio pré-operatório — dos 2 aos 7 anos

Característica central

O estágio pré-operatório é marcado pela expansão da linguagem e pela capacidade de utilizar símbolos. A criança passa a representar mentalmente pessoas, objetos e situações que não estão presentes. Apesar desse avanço, o pensamento ainda não apresenta a reversibilidade e a organização lógica características das operações concretas: as conclusões são frequentemente orientadas pela aparência imediata, pela intuição e pelo aspecto mais perceptivamente saliente da situação.

Função simbólica

A função simbólica permite que uma coisa represente outra. Pode ser observada: - na linguagem; - no desenho; - na imitação diferida; - na formação de imagens mentais; - nas brincadeiras de faz de conta; - na capacidade de narrar acontecimentos passados.

Uma caixa pode representar um carro, um cabo de vassoura pode representar um cavalo e um boneco pode assumir diferentes papéis em uma história. A brincadeira simbólica demonstra que a criança já não depende apenas do objeto concreto e de sua função habitual.

Egocentrismo cognitivo

O egocentrismo cognitivo corresponde à dificuldade de compreender que outras pessoas podem perceber, conhecer ou interpretar uma situação de maneira diferente. Não é sinônimo de egoísmo, falta de empatia ou transtorno comportamental — trata-se de uma limitação cognitiva relacionada à capacidade de coordenar diferentes perspectivas. Uma criança pode presumir que o adulto sabe exatamente aquilo que ela sabe, omitir informações importantes ao contar uma história ou acreditar que outra pessoa está vendo aquilo que ela própria está vendo. Em uma avaliação clínica, perguntas como “O que sua mãe está pensando?” ou “O que essa outra pessoa sabe?” podem exigir habilidades de perspectiva que ainda estão em desenvolvimento.

Centração

A centração é a tendência de considerar apenas uma dimensão da situação, geralmente aquela que chama mais atenção perceptivamente. Quando duas fileiras possuem o mesmo número de objetos, mas uma delas está mais espaçada, a criança pode afirmar que a fileira mais comprida tem mais elementos.

Dificuldade de conservação

Conservação é a compreensão de que determinadas propriedades permanecem constantes apesar de mudanças na aparência. No experimento clássico, a criança observa dois copos iguais contendo a mesma quantidade de líquido; em seguida, o conteúdo de um dos copos é transferido para um recipiente mais alto e estreito. A criança pré-operatória pode afirmar que o recipiente mais alto contém mais líquido — resposta que decorre da centração na altura e da dificuldade de coordenar simultaneamente altura e largura. A conservação pode envolver diferentes domínios: - número; - comprimento; - quantidade de líquido; - massa; - peso; - volume.

A aquisição não ocorre necessariamente ao mesmo tempo em todos os domínios.

Irreversibilidade

A irreversibilidade é a dificuldade de desfazer mentalmente uma transformação. No exemplo dos recipientes, a criança pode não conseguir concluir que, se o líquido for devolvido ao copo original, a situação retornará ao estado inicial.

Animismo

O animismo consiste em atribuir intenção, sentimentos ou características humanas a objetos e fenômenos naturais. Exemplos comuns: - “A lua está me seguindo.” - “A cadeira me bateu.” - “O sol foi dormir.” - “O brinquedo ficou triste.”

Essas expressões podem fazer parte do desenvolvimento cognitivo e simbólico. Isoladamente, não indicam perda do juízo de realidade ou sintomas psicóticos.

Artificialismo

O artificialismo é a tendência de imaginar que fenômenos naturais foram construídos por alguém com alguma finalidade. A criança pode perguntar quem fez as montanhas, quem colocou as estrelas no céu ou por que alguém fez chover.

Raciocínio transdutivo e causalidade

A criança pode estabelecer relações causais entre acontecimentos apenas porque ocorreram próximos no tempo. Pode acreditar que algo ruim aconteceu porque teve um pensamento negativo ou porque desobedeceu aos pais. Essa forma de raciocínio é clinicamente relevante quando a criança tenta explicar doenças, separações, mortes ou conflitos familiares — é importante avaliar se ela desenvolveu interpretações autoculpabilizantes baseadas em causalidade imatura.

Implicações clínicas

A comunicação com crianças pré-operatórias deve utilizar linguagem concreta, frases curtas, exemplos visuais, brincadeiras e demonstrações. Perguntas excessivamente abstratas podem produzir respostas inconsistentes não por falta de colaboração, mas porque ultrapassam a organização cognitiva disponível. Também é necessário interpretar com cautela relatos fantasiosos: crianças dessa faixa etária podem misturar imaginação, memória, desejo e percepção, sem intenção consciente de mentir.

3. Estágio operatório concreto — dos 7 aos 11 ou 12 anos

Característica central

Nesse estágio, a criança passa a utilizar operações mentais mais organizadas e lógicas. Entretanto, o raciocínio funciona melhor quando aplicado a situações concretas, conhecidas ou facilmente representáveis. A criança consegue considerar diferentes aspectos de um problema, compreender transformações e organizar informações de maneira mais sistemática.

Descentração

A descentração é a capacidade de considerar simultaneamente mais de uma característica da situação. No experimento dos recipientes, a criança percebe que o copo é mais alto, mas também é mais estreito — e conclui que a quantidade de líquido permaneceu a mesma.

Conservação

Com a aquisição da conservação, a criança compreende que propriedades como número, massa ou quantidade podem permanecer constantes apesar de modificações na aparência. Essa capacidade demonstra que o pensamento já não é determinado exclusivamente pela percepção imediata.

Reversibilidade

A reversibilidade permite desfazer mentalmente uma transformação. A criança pode compreender que o líquido colocado em um recipiente diferente retornará à condição inicial quando for transferido novamente para o copo original. A reversibilidade também auxilia na compreensão das operações matemáticas: a relação entre adição e subtração ou entre multiplicação e divisão torna-se mais clara quando a criança consegue percorrer mentalmente uma operação nos dois sentidos.

Classificação

A criança passa a organizar objetos em categorias de acordo com características comuns. Ela também compreende que uma mesma entidade pode pertencer a diferentes níveis de classificação: uma rosa é simultaneamente uma rosa, uma flor e uma planta.

Inclusão de classes

A inclusão de classes é a compreensão de que uma categoria menor está contida em uma categoria mais ampla. Quando são apresentadas sete rosas e três margaridas, a criança que adquiriu essa habilidade compreende que há mais flores do que rosas, pois a categoria “flores” inclui os dois grupos.

Seriação

A seriação é a capacidade de organizar elementos segundo uma dimensão crescente ou decrescente. A criança pode ordenar objetos: - do menor para o maior; - do mais leve para o mais pesado; - do mais claro para o mais escuro; - do mais curto para o mais comprido.

Transitividade

A transitividade permite compreender relações indiretas. Se Ana é mais alta que Beatriz e Beatriz é mais alta que Carla, a criança consegue concluir que Ana é mais alta que Carla, mesmo sem comparar diretamente Ana e Carla.

Limites do pensamento concreto

Embora a criança consiga utilizar lógica, seu desempenho costuma ser melhor quando o problema é apresentado com objetos, imagens, exemplos cotidianos ou situações que ela já conhece. Questões puramente hipotéticas, proposicionais ou muito abstratas ainda podem ser difíceis: a criança pode compreender uma regra quando ela é demonstrada com materiais concretos, mas apresentar dificuldade para aplicar a mesma lógica a uma formulação exclusivamente verbal.

Implicações clínicas e educacionais

Na entrevista, é útil recorrer a exemplos concretos e situacionais: - “O que aconteceu ontem na escola?” - “O que você fez depois disso?” - “O que seu colega falou?” - “Como seu corpo fica quando você está ansioso?” - “O que muda nos dias em que você toma a medicação?”

Perguntas genéricas, como “Como são suas relações interpessoais?”, tendem a ser menos informativas do que perguntas ligadas a episódios específicos. Na escola, recursos visuais, materiais manipuláveis, esquemas e exemplos práticos podem facilitar a compreensão de conteúdos novos.

4. Estágio operatório formal — a partir dos 11 ou 12 anos

Característica central

O pensamento deixa de depender exclusivamente da experiência concreta. O adolescente passa a raciocinar sobre possibilidades, hipóteses, ideias abstratas e situações que não estão diretamente presentes. Consegue pensar não apenas sobre aquilo que existe, mas também sobre aquilo que poderia existir.

Pensamento abstrato

O adolescente passa a manipular conceitos como justiça, liberdade, moralidade, identidade, futuro, política, espiritualidade, sentido da vida e relações sociais complexas. Essa capacidade amplia a reflexão sobre valores pessoais, regras familiares, expectativas sociais e identidade.

Raciocínio hipotético-dedutivo

O raciocínio hipotético-dedutivo permite formular hipóteses, deduzir consequências e testá-las de maneira organizada. Diante de um problema, o adolescente pode: - formular hipóteses; - identificar variáveis; - prever possíveis resultados; - testar uma variável por vez; - comparar os resultados; - revisar a hipótese inicial.

Isso representa uma mudança em relação ao pensamento concreto, mais dependente da observação imediata e da tentativa direta.

Pensamento proposicional

O pensamento proposicional permite avaliar a lógica de uma afirmação independentemente de seu conteúdo concreto. O adolescente consegue raciocinar sobre premissas hipotéticas, mesmo quando não correspondem à realidade cotidiana.

Análise combinatória

A capacidade combinatória permite considerar diferentes combinações possíveis entre variáveis. Em um experimento, o adolescente pode analisar sistematicamente como peso, comprimento, força ou velocidade influenciam o resultado, em vez de modificar várias condições simultaneamente.

Metacognição

A metacognição é a capacidade de refletir sobre o próprio pensamento. O adolescente pode perceber: - quais estratégias facilitam sua aprendizagem; - quando está distraído; - quais pensamentos influenciam suas emoções; - quais interpretações podem estar equivocadas; - quando precisa modificar sua estratégia de resolução de problemas.

Essa capacidade é especialmente relevante na psicoterapia, na psicoeducação e no desenvolvimento de estratégias de autorregulação.

Idealismo e questionamento

Ao conseguir imaginar possibilidades, o adolescente passa a comparar o mundo real com modelos ideais. Pode questionar regras familiares, decisões dos adultos, convenções sociais, valores religiosos, desigualdades e contradições entre discurso e comportamento. Esse questionamento pode fazer parte do desenvolvimento cognitivo e da construção da identidade — não deve ser interpretado automaticamente como oposição patológica.

O pensamento formal não é uniforme

A presença do pensamento formal não significa que o adolescente raciocinará de forma abstrata em todas as situações. O desempenho pode variar conforme: - familiaridade com o tema; - escolarização; - linguagem; - estado emocional; - funções executivas; - capacidade intelectual; - contexto sociocultural; - motivação; - complexidade da tarefa.

Mesmo adultos podem utilizar raciocínio predominantemente concreto em áreas pouco conhecidas ou emocionalmente carregadas.

Aplicações da teoria de Piaget na psiquiatria da infância e adolescência

Adequação da comunicação

A forma de explicar sintomas, diagnósticos e tratamentos deve ser compatível com o nível de desenvolvimento cognitivo. Crianças pequenas se beneficiam de explicações concretas, demonstrações, histórias, brinquedos e recursos visuais. Adolescentes geralmente conseguem participar de discussões mais abstratas sobre riscos, benefícios, prognóstico, padrões de pensamento e objetivos terapêuticos.

Compreensão de doença e tratamento

A criança pode interpretar a doença a partir de causalidades concretas, mágicas ou moralizadas. Pode acreditar que adoeceu porque desobedeceu, teve um pensamento ruim ou foi “má”. Perguntar diretamente o que acredita ter causado o problema pode revelar culpa, medo ou fantasias não verbalizadas espontaneamente. A explicação deve corrigir concepções equivocadas sem desqualificar a maneira como a criança tentou compreender a experiência.

Avaliação do relato infantil

A capacidade de organizar narrativas, diferenciar fantasia e realidade, compreender tempo, reconhecer causalidade e considerar outras perspectivas depende do desenvolvimento cognitivo. Relatos fragmentados ou temporalmente desorganizados não devem ser interpretados automaticamente como falta de credibilidade — é necessário considerar idade, linguagem, memória, ansiedade, vínculo com o examinador e forma de realização das perguntas.

Expectativas compatíveis com o desenvolvimento

A teoria auxilia o clínico a avaliar se determinada exigência está adequada à idade. Não é razoável esperar que uma criança pré-operatória compreenda plenamente conceitos abstratos, consequências de longo prazo ou perspectivas complexas. Da mesma forma, dificuldades persistentes em tarefas muito básicas para a faixa etária podem justificar investigação mais ampla do desenvolvimento.

Diferenciação entre imaturidade e psicopatologia

Comportamentos como pensamento mágico, atribuição de vida a objetos, dificuldade de perspectiva e interpretações concretas podem ser esperados em determinadas idades. A avaliação psicopatológica exige analisar intensidade, frequência, rigidez, prejuízo funcional, contexto, trajetória do desenvolvimento, presença de outros sintomas e discrepância em relação ao nível cognitivo global. Nenhum comportamento deve ser classificado como patológico apenas porque se diferencia do raciocínio adulto.

Entrevista clínica

A entrevista deve ser adaptada ao desenvolvimento, utilizando perguntas que a criança consiga compreender. Para crianças pequenas, recursos como desenhos, bonecos, escalas visuais e brincadeiras podem facilitar a comunicação. Com crianças em idade escolar, perguntas concretas sobre episódios específicos costumam ser mais produtivas. Com adolescentes, é possível explorar hipóteses, crenças, ambivalências, projetos futuros e interpretações sobre o próprio funcionamento. A teoria de Piaget pode orientar expectativas clínicas, mas precisa ser integrada à avaliação da linguagem, atenção, memória, funções executivas, aprendizagem, cognição social, funcionamento adaptativo e contexto sociocultural.

Limitações e críticas contemporâneas

A teoria piagetiana permanece relevante, mas não deve ser aplicada como um modelo rígido ou suficiente para explicar todo o desenvolvimento infantil.

  • Idades não são limites absolutos. As idades atribuídas aos estágios são aproximações. A aquisição de uma habilidade depende da complexidade da tarefa, da maneira como a pergunta é formulada, da experiência anterior e do contexto. Uma criança pode demonstrar raciocínio operatório em determinada área e utilizar estratégias mais intuitivas em outra.
  • Algumas capacidades podem surgir antes. Estudos posteriores demonstraram que bebês e crianças pequenas podem apresentar certas capacidades mais precocemente quando as tarefas reduzem as demandas de linguagem, memória, controle inibitório ou compreensão das instruções — sugerindo que alguns experimentos clássicos podem ter subestimado as competências infantis.
  • O desenvolvimento nem sempre é global e sincronizado. O modelo clássico sugere reorganizações amplas do pensamento; entretanto, o desenvolvimento pode ocorrer de maneira desigual entre diferentes domínios. Uma criança pode apresentar raciocínio avançado em temas nos quais possui maior conhecimento e desempenho menos sofisticado em áreas desconhecidas.
  • Influência sociocultural. A teoria enfatizou a exploração individual e a interação da criança com o ambiente físico. Abordagens posteriores destacaram mais intensamente a participação da linguagem, da cultura, da escolarização, da mediação dos adultos e das interações sociais.
  • Pensamento formal não é utilizado universalmente. Nem todos os adolescentes e adultos apresentam raciocínio formal de maneira consistente — depende de experiência, escolaridade, familiaridade com o conteúdo e exigências da situação.

As principais críticas incluem a rigidez do modelo de estágios, a subestimação de algumas capacidades infantis, a superestimação da utilização universal do pensamento formal e a consideração insuficiente dos fatores sociais e culturais. Ainda assim, a contribuição de Piaget para compreender a criança como participante ativa da construção do conhecimento permanece fundamental.

Piaget e o diagnóstico psiquiátrico

Os estágios de Piaget descrevem tendências do desenvolvimento cognitivo. Não constituem critérios diagnósticos e não devem ser utilizados isoladamente para determinar se uma criança apresenta ou não um transtorno mental ou do neurodesenvolvimento. A idade proposta para determinado estágio também não define, por si só, uma idade mínima para diagnosticar TDAH, transtorno do espectro autista, deficiência intelectual, transtornos de ansiedade ou outras condições.

O diagnóstico deve considerar critérios clínicos específicos, trajetória do desenvolvimento, intensidade dos sintomas, prejuízo funcional, presença em diferentes contextos, informações de múltiplos informantes e diagnósticos diferenciais. Piaget pode ajudar o médico a compreender como a criança interpreta perguntas, experiências e sintomas — mas não substitui os critérios diagnósticos, a avaliação clínica longitudinal ou os instrumentos apropriados.

Síntese dos estágios

  • Sensório-motor (nascimento aos 2 anos): a criança conhece o mundo por meio dos sentidos e das ações; desenvolve intencionalidade, causalidade básica, permanência do objeto e representação mental inicial.
  • Pré-operatório (~2 a 7 anos): a linguagem e o pensamento simbólico se expandem; o raciocínio ainda é intuitivo, centrado e pouco reversível, com egocentrismo cognitivo, animismo e dificuldade de conservação.
  • Operatório concreto (~7 a 11/12 anos): a criança utiliza lógica em situações concretas; desenvolve conservação, reversibilidade, descentração, classificação, seriação e transitividade.
  • Operatório formal (a partir de ~11/12 anos): surge maior capacidade de pensamento abstrato, formulação de hipóteses, raciocínio dedutivo, análise de variáveis, planejamento sistemático e metacognição.

Uma maneira simples de memorizar a progressão: a criança primeiro age sobre o mundo, depois representa o mundo, em seguida raciocina logicamente sobre situações concretas e, posteriormente, consegue raciocinar sobre hipóteses e ideias abstratas.

Conclusão

A principal contribuição de Piaget foi demonstrar que o pensamento infantil possui uma organização própria e se transforma qualitativamente ao longo do desenvolvimento. Sua teoria ajuda médicos e outros profissionais a adaptar a comunicação, compreender determinadas respostas infantis, estabelecer expectativas mais realistas e diferenciar limitações relacionadas ao desenvolvimento de manifestações potencialmente patológicas.

Entretanto, os estágios devem ser utilizados como referenciais aproximados, e não como uma sequência rígida ou uma escala diagnóstica. A avaliação da criança e do adolescente deve integrar desenvolvimento cognitivo, linguagem, aprendizagem, funções executivas, cognição social, funcionamento adaptativo, contexto familiar, cultura, escolarização e condições emocionais.

Referências

1. Piaget J, Inhelder B. The Psychology of the Child. New York: Basic Books; 1969. 2. Scott HK, Cogburn M. Piaget. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island: StatPearls Publishing; atualização de 9 de janeiro de 2023. 3. Babakr ZH, Mohamedamin P, Kakamad K. Piaget's Cognitive Developmental Theory: Critical Review. Education Quarterly Reviews. 2019;2(3):517-524. 4. Beilin H, Fireman G. The foundation of Piaget's theories: mental and physical action. Advances in Child Development and Behavior. 1999;27:221-246. 5. Bjorklund DF. A metatheory for cognitive development, or "Piaget is dead" revisited. Child Development. 2018;89(6):2288-2302.