Capítulo 4
Capítulo 4 — Atenção e Memória
Livro: Semiologia na Infância e Adolescência — Francisco Baptista Assumpção Junior
O capítulo aborda duas funções psíquicas fundamentais para o exame psiquiátrico infantil: atenção e memória.
Podcast do capítulo
1. Ideia central do capítulo
O capítulo aborda duas funções psíquicas fundamentais para o exame psiquiátrico infantil: atenção e memória.
A atenção é apresentada como a função que permite ao psiquismo selecionar, direcionar e manter o foco sobre determinados estímulos ou experiências. Sem atenção adequada, a criança não apreende bem o mundo, não registra adequadamente as informações e, consequentemente, pode parecer ter problemas de memória, aprendizagem ou inteligência.
A memória, por sua vez, é a função que permite fixar, conservar, evocar e reconhecer experiências já vividas ou informações adquiridas. Ela participa da inteligência, da aprendizagem, da identidade, da orientação no tempo e da continuidade do Eu.
Em psiquiatria da infância e adolescência, o ponto mais importante é que atenção e memória precisam ser avaliadas conforme o desenvolvimento cognitivo da criança. Uma criança pequena não memoriza, organiza, evoca ou sustenta atenção como um adolescente.
2. Atenção
Conceito
A atenção pode ser entendida como a orientação da atividade psíquica para algo que está sendo experimentado.
Ela permite que o sujeito selecione uma informação entre várias possibilidades e organize sua consciência em torno dela. Por isso, a atenção está diretamente ligada à consciência.
Quando a consciência está rebaixada ou turva, a atenção também se prejudica. Da mesma forma, se a atenção está comprometida, a sensopercepção, a memória e o raciocínio também podem ser prejudicados.
Em termos simples:
A atenção é o filtro que seleciona o que entra na consciência e o que será processado.
Ela pode se dirigir a estímulos externos, como sons, imagens, movimentos e objetos, ou a estímulos internos, como pensamentos, lembranças, sentimentos e representações mentais.
3. Atenção espontânea e atenção voluntária
O capítulo diferencia duas formas principais de atenção.
Atenção espontânea
É aquela capturada pelos estímulos do ambiente, sem esforço deliberado.
A criança presta atenção porque algo chama sua atenção naturalmente: uma tela, um brinquedo, um barulho, um movimento, uma luz, uma novidade.
Na infância, isso é muito importante. Muitas crianças com dificuldade atencional conseguem manter atenção em estímulos altamente interessantes, como videogames, desenhos ou celular. Isso não exclui TDAH, porque essa atenção é espontânea, dependente do interesse e da recompensa imediata.
Ponto de prova:
Criança com TDAH pode sustentar atenção em videogame ou tela porque ali há estímulos intensos, rápidos, recompensadores e de alto interesse. Isso não significa ausência de déficit atencional.
Atenção voluntária
É aquela dirigida ativamente pelo indivíduo.
Exige esforço, intenção e controle. É a atenção necessária para estudar, ouvir uma explicação, seguir instruções, fazer tarefa escolar ou permanecer em uma atividade pouco interessante.
Quando essa atenção se mantém de forma persistente, o capítulo chama de concentração ou tenacidade.
A atenção voluntária é muito importante para desempenho escolar, raciocínio, assimilação de conteúdos e resolução de problemas.
4. Tipos cognitivos de atenção
O capítulo cita algumas formas modernas de pensar a atenção.
Atenção seletiva
É a capacidade de fixar a atenção em determinados estímulos e ignorar outros.
Exemplo: a criança consegue ouvir a professora mesmo havendo barulho na sala.
Vigilância ou detecção de sinal
É uma espera passiva por um estímulo que pode aparecer a qualquer momento.
Exemplo: ficar atento esperando um sinal, um comando ou uma mudança no ambiente.
Sondagem
É a busca ativa por um estímulo específico.
Exemplo: procurar uma figura escondida em uma imagem, como em “Onde está Wally?”.
Atenção dividida
É a capacidade de dividir a atenção entre duas ou mais tarefas ao mesmo tempo.
Exemplo: copiar da lousa enquanto escuta a explicação.
5. Neurociências da atenção
O capítulo faz uma ponte com neurociências, mas lembra que o foco semiológico continua sendo clínico.
A manutenção do estado de alerta depende especialmente da integridade do hemisfério cerebral direito. Lesões nesse hemisfério podem reduzir o desempenho geral em tarefas atencionais.
Também é citado o sistema noradrenérgico, com origem no locus coeruleus, importante nos estados de alerta e na modulação da atenção.
Outras áreas mencionadas incluem regiões parietais e colículo superior, associadas ao sistema atencional. O texto também aponta que a atenção pode ser considerada uma função cognoscitiva frontal.
Para prova, guarde:
Atenção depende de alerta, seleção de estímulos, integridade de redes frontais, parietais, hemisfério direito e sistemas noradrenérgicos.
6. Distúrbios da atenção
O capítulo divide os distúrbios atencionais em alterações quantitativas e qualitativas.
Aprosexia
É a ausência total de atenção.
É uma alteração grave, encontrada em:
- quadros confusionais;
- turvação da consciência;
- agitação motora intensa;
- quadros infecciosos e febris;
- coma.
Na criança e no adolescente, é mais associada a estados clínicos graves do que a quadros de desatenção cotidiana.
Hipoprosexia
É a redução da capacidade atencional, principalmente da concentração.
A atenção fica superficial, pobre, instável, com tendência à distraibilidade e registro fraco dos eventos.
Na infância, aparece em quadros como:
- TDAH;
- fadiga;
- tédio;
- sonolência;
- deficiência intelectual;
- transtornos do espectro autista;
- estados afetivos;
- baixa motivação.
O capítulo chama atenção para uma pegadinha importante: prejuízo atencional pode aparecer em TDAH, deficiência intelectual e TEA. Portanto, não se deve concluir comorbidade automaticamente. É preciso entender se a dificuldade vem de desatenção primária, atraso cognitivo, retraimento autístico, dificuldade de linguagem, baixa motivação ou outro fator.
Hiperprosexia
É aumento da atenção espontânea, mas com diminuição da atenção voluntária.
O sujeito é capturado por muitos estímulos ao redor e perde a capacidade de manter o foco em uma tarefa. Na criança, pode ocorrer em:
- curiosidade normal de idades menores;
- exploração ambiental;
- TDAH;
- quadros maníacos.
Aqui o problema não é falta absoluta de atenção, mas excesso de captação por estímulos externos, sem filtro adequado.
Hipermetamorfose
É um aumento da atenção espontânea com prejuízo importante da atenção voluntária. O indivíduo não consegue fixar-se em um estímulo porque qualquer estímulo ambiental interrompe sua atividade.
É descrita em estados confusionais e pode lembrar quadros de intensa distraibilidade.
Distraibilidade ou perda de concentração
É a diminuição da capacidade de fixar atenção voluntária em atividades de interesse ou necessárias.
Pode ocorrer por:
- fadiga;
- falta de motivação;
- desinteresse;
- problemas afetivos;
- sonolência;
- TDAH;
- estados ansiosos;
- quadros depressivos.
O oposto da distraibilidade é a tenacidade atencional, isto é, a capacidade de manter a atenção em um mesmo objetivo pelo tempo necessário.
7. Semiologia da atenção
A exploração da atenção pode ser feita por tarefas simples.
Retenção de dígitos
O examinador fala uma sequência de números, e o paciente deve repeti-la.
Em adultos, espera-se retenção de cerca de 7 dígitos. Em crianças em idade escolar, é esperado um número menor, em torno de 5, variando conforme idade e desenvolvimento.
Provas de aritmética
São solicitados cálculos simples, como soma, subtração, multiplicação e divisão. Avaliam atenção, concentração, memória operacional e raciocínio.
Completar figuras
São apresentadas lâminas ou imagens nas quais falta um elemento. A criança deve apontar o que falta.
Brinquedos e atividades lúdicas
Em crianças menores, o capítulo sugere usar recursos como:
- sequência de lápis de cor, pedindo que a criança repita a ordem;
- sobreposição de figuras, procurando a figura igual;
- figuras com algo oculto, como localizar determinado elemento em uma cena.
Esse ponto é importante: em psiquiatria infantil, a avaliação da atenção não precisa ser apenas verbal. Pode e deve ser lúdica, concreta e adequada à idade.
8. Memória
Conceito
A memória é descrita como uma função essencial para a vida intelectual. Sem memória, não há aprendizagem, continuidade da experiência, reconhecimento de si, nem organização do passado, presente e futuro.
O capítulo define a memória como atividade psíquica que permite:
- fixar;
- conservar;
- reproduzir ou evocar;
- reconhecer.
A memória não é apenas “guardar informação”. Ela permite que uma vivência seja retida no psiquismo e recuperada posteriormente.
9. Etapas do processo de memorização
O capítulo organiza a memória em quatro etapas.
1. Fixação
É a captação e registro do material.
Depende de:
- nível de consciência;
- atenção;
- concentração;
- motivação;
- interesse;
- afetividade.
Se a criança não presta atenção, muitas vezes a informação nem é fixada. Por isso, dificuldades de memória relatadas pela família podem, na verdade, ser dificuldades atencionais.
2. Conservação
É a manutenção das informações já fixadas.
As lembranças permanecem em estado de latência, articuladas a outras memórias. Elas não ficam isoladas; entram em redes associativas.
3. Evocação
É a recuperação consciente de uma lembrança.
Pode sofrer interferência de fatores emocionais, conscientes ou inconscientes. Algumas lembranças são mais facilmente evocadas; outras são bloqueadas, omitidas ou selecionadas por serem penosas.
4. Reconhecimento
É identificar a imagem evocada como pertencente a um acontecimento vivido.
O reconhecimento envolve localização temporoespacial e sensação de familiaridade. É a fase em que a pessoa reconhece: “isso aconteceu comigo”, “isso é uma lembrança”, “isso pertence ao meu passado”.
10. Tipos de memória
Memória sensorial
É muito breve, dura menos de um segundo e está ligada à percepção imediata.
É frágil e muito dependente da atenção. Por isso, a família pode dizer que a criança “não lembra”, quando na verdade ela nem registrou adequadamente por desatenção.
Memória de curto prazo / memória de trabalho
Dura segundos a poucos minutos.
É usada para manter temporariamente informações necessárias para realizar uma tarefa. Exemplo: guardar mentalmente uma instrução enquanto executa uma atividade.
O capítulo cita a concepção de Baddeley, com três subsistemas:
- componente verbal ou alça fonológica;
- componente visuoespacial;
- executivo central, que coordena os anteriores e direciona a atenção.
Essa memória é importantíssima para aprendizagem e planejamento. Em TDAH, frequentemente há prejuízo de memória operacional, principalmente por dificuldade de atenção, controle executivo e manutenção ativa da informação.
Memória de longo prazo
É o armazenamento mais permanente das informações que podem ser evocadas posteriormente.
É facilitada pela repetição.
Pode ser dividida em memória explícita e memória implícita.
11. Memória explícita
É consciente e pode ser evocada voluntariamente. Costuma ser expressa por palavras.
Memória episódica
Relaciona-se a vivências pessoais situadas no tempo e no espaço.
Exemplo: “Quando você foi à casa da sua avó?” A criança responde: “Ontem.”
É memória autobiográfica.
Memória semântica
Relaciona-se a conhecimentos gerais compartilháveis.
Exemplo: “Quem descobriu o Brasil?” Resposta esperada: “Pedro Álvares Cabral.”
Não depende de uma vivência pessoal, mas de conhecimento aprendido.
12. Memória implícita
É automática, não consciente e não costuma ser expressa verbalmente.
Memória de procedimento
Relaciona-se a habilidades motoras, perceptivas e cognitivas.
Exemplos:
- andar de bicicleta;
- montar quebra-cabeças;
- dirigir;
- tocar instrumento;
- executar uma sequência motora aprendida.
Condicionamento clássico
Baseia-se no pareamento de estímulos.
Um estímulo neutro, quando associado repetidamente a um estímulo forte, passa a produzir resposta condicionada.
Na infância, isso ajuda a entender medos aprendidos e diferenciação entre medo condicionado e fobia.
Condicionamento operante
Depende das consequências da resposta.
- Reforço aumenta a probabilidade de repetição do comportamento.
- Punição reduz a probabilidade de repetição.
O capítulo dá exemplos aplicáveis à infância: insônia infantil associada a hábitos parentais, ceder a exigências, dormir junto com os pais, etc.
Aprendizagem não associativa
É a forma mais simples de aprendizagem. Envolve diminuição progressiva da resposta a estímulos repetitivos e inócuos.
Exemplo clínico: quando pais ameaçam repetidamente uma consequência que nunca cumprem, a criança passa a desconsiderar aquela ameaça.
Pré-ativação ou priming
A exposição prévia a um estímulo facilita seu reconhecimento posterior.
Exemplo: em jogos infantis, quando a criança já foi exposta a certas palavras ou figuras, reconhece-as mais rapidamente depois.
13. Desenvolvimento da memória na criança
O capítulo destaca que a memória se transforma qualitativamente ao longo do desenvolvimento.
Período sensório-motor
Predomina uma inteligência sensorial e motora.
A criança armazena experiências ligadas a sensações de prazer e desprazer, mas ainda pouco diferenciadas e difíceis de serem evocadas conscientemente.
Por volta dos 12 meses
Com o início das primeiras palavras, a criança começa a armazenar sons e significados.
Mas a memória propriamente dita, no sentido simbólico e representacional, só aparece com mais clareza a partir da função semiótica, por volta dos 18 meses.
Início do segundo ano
A memória infantil já permite imagens representativas. O mundo deixa de ser apenas uma sucessão caótica de impressões e começa a se tornar mais ordenado, estruturado e concreto.
Até cerca de 6 anos
A memória é ampla, mas pouco seletiva. É difícil orientá-la para uma finalidade. A criança pré-escolar tem memória ainda muito involuntária e de difícil dirigibilidade.
A partir de 6–7 anos
Com o período de operações concretas, a memória mecânica começa a se transformar em memória mais lógica.
A capacidade de memorização aumenta, mas a criança ainda pode decorar com facilidade e deformar acontecimentos vividos.
Ponto de prova:
Na criança pequena, a memória é mais concreta, involuntária, afetiva e ligada à percepção. Com o desenvolvimento cognitivo, torna-se mais lógica, seletiva e dirigida.
14. Neurociências da memória
O capítulo cita algumas bases neuroanatômicas importantes.
Memória declarativa
Relaciona-se ao hipocampo e estruturas dos lobos temporais.
Memória de procedimento
Envolve o núcleo estriado.
Memória de trabalho
Envolve córtex pré-frontal e região lateral intraparietal.
Outras estruturas
O texto também menciona envolvimento do diencéfalo, lobo temporal, tálamo e corpos mamilares no processamento mnêmico.
A ideia geral é que diferentes tipos de memória dependem de circuitos distintos, embora integrados.
15. Alterações da memória
O capítulo divide as alterações da memória em:
Alterações quantitativas
- hipermnésia;
- hipomnésia;
- amnésia.
Alterações qualitativas ou paramnésias
- ilusões mnêmicas;
- alucinações mnêmicas;
- fabulação;
- criptomnésia;
- ecmnésia;
- déjà vu;
- jamais vu.
16. Hipermnésia
É a evocação de lembranças com maior exatidão, vivacidade ou riqueza de detalhes.
Mas o capítulo ressalta: não é necessariamente um aumento real da memória. Muitas vezes é uma maior facilidade de evocação limitada a eventos específicos, geralmente ligados a afetos intensos.
Pode ocorrer em:
- quadros febris;
- hipnose;
- estados crepusculares epilépticos ou histéricos;
- excitação maníaca;
- narcoanálise;
- hipoglicemia insulínica;
- situações-limite;
- momentos que antecedem a morte;
- alguns quadros não patológicos.
Não confundir com “hipermnésia” no sentido moderno usado para algumas habilidades específicas em pessoas com deficiência intelectual, autismo de alto funcionamento ou antigo conceito de Asperger.
17. Hipomnésia
É a diminuição do número de lembranças passíveis de evocação em determinado período.
Quando a perda é completa, entramos no campo das amnésias.
A hipomnésia pode ser vista como redução parcial da capacidade de recordar.
18. Amnésias
Amnésia anterógrada
É a dificuldade de fixar fatos ocorridos depois da causa do distúrbio.
Exemplo: após um TCE ou uma alteração neurológica, o paciente não consegue formar novas memórias.
É alteração da fixação.
Amnésia retrógrada
É a perda de memória dos fatos ocorridos antes do comprometimento cerebral.
Pode abranger minutos, horas, dias ou semanas anteriores ao evento.
Ocorre com maior frequência em:
- lesões cerebrais;
- epilepsia temporal;
- traumatismos cranianos;
- demências orgânicas;
- síndrome de Korsakoff;
- turvação de consciência;
- intoxicações.
Também pode ocorrer por base psicogênica, após traumas emocionais intensos, geralmente de forma lacunar.
Amnésia retroanterógrada
Há alteração simultânea da fixação e da evocação.
Aparece em quadros graves, como:
- demências importantes;
- traumatismos cranioencefálicos;
- perda de compreensão;
- perda de orientação temporoespacial.
Amnésias sistematizadas
São perdas parciais de lembranças específicas, às vezes restritas a palavras ou nomes próprios.
Podem ocorrer após traumatismos cranianos e envenenamentos.
Amnésias catatímicas
São esquecimentos ligados a acontecimentos afetivamente carregados.
A pessoa esquece determinado evento, mas pode lembrar outros fatos do mesmo período.
19. Paramnésias
Ilusões mnêmicas
São lembranças reais deformadas por acréscimo de elementos falsos.
Existe um núcleo verdadeiro, mas a recordação é falsificada.
Podem participar da construção de delírios paranoides ou aparecer em turvação da consciência.
Alucinações mnêmicas
São criações imaginativas com aparência de recordações, mas sem correspondência com fatos reais do passado.
O capítulo associa a quadros paranoides de esquizofrenia e quadros senis, afirmando que não ocorrem em crianças.
Fabulação
É uma invenção tomada como acontecimento vivido, preenchendo lacunas de memória.
É típica da síndrome de Korsakoff, mas pode aparecer em outros quadros orgânicos e psicóticos.
Na infância, o cuidado é não confundir fabulação patológica com pensamento mágico ou pré-lógico da criança pequena.
Criptomnésia
É quando uma lembrança aparece como se fosse uma ideia nova.
A pessoa não reconhece que aquilo veio da memória.
Ecmnésia
É a revivescência súbita de períodos do passado, como se o vivido fosse presentificado.
Relaciona-se a desestruturação da consciência.
Déjà vu e jamais vu
Déjà vu: sensação de familiaridade diante de uma situação nova.
Jamais vu: sensação de estranhamento diante de algo familiar.
Podem ocorrer:
- em pessoas sem psicopatologia;
- em ansiedade;
- em epilepsia de lobo temporal.
20. Semiologia da memória
Na criança
A memória deve ser avaliada por jogos e atividades concretas.
Exemplos:
- jogos de memória com figuras;
- pares de figuras viradas para baixo;
- armários ou gavetas de memória;
- memória visual com objetos sobre a mesa.
Na memória visual, colocam-se três objetos, pede-se que a criança observe, depois ela fecha os olhos, retira-se um objeto e pergunta-se qual está faltando. A dificuldade pode aumentar gradualmente até seis objetos.
No adolescente e adulto
São citadas provas como:
- repetição de cifras;
- prova dos pares de Ranschburg-Ziehen;
- testes de Ebbinghaus;
- prova digital de Rieges;
- prova de Viereckle;
- prova de Cimbal;
- prova de notícia.
A prova de notícia avalia retenção de ideias lógicas. Crianças por volta de 7 anos costumam repetir poucas ideias; adultos conseguem repetir mais.
Pontos principais para prova
Atenção é seleção e direção da consciência para uma experiência.
Atenção espontânea é capturada pelo estímulo. Atenção voluntária exige esforço e controle.
Criança com TDAH pode focar em videogame, porque isso depende de atenção espontânea, recompensa e alto interesse.
Concentração/tenacidade é a manutenção persistente da atenção.
Tipos cognitivos de atenção:
- seletiva;
- vigilância;
- sondagem;
- dividida.
Distúrbios:
- aprosexia = ausência total;
- hipoprosexia = redução;
- hiperprosexia = aumento da atenção espontânea com prejuízo voluntário;
- hipermetamorfose = atenção capturada por qualquer estímulo;
- distraibilidade = perda de concentração.
Em TDAH, DI e TEA pode haver prejuízo atencional, mas por mecanismos diferentes. Não concluir comorbidade automaticamente.
Memória tem quatro etapas:
- fixação;
- conservação;
- evocação;
- reconhecimento.
Memória de trabalho é essencial para aprendizagem, planejamento e execução de tarefas.
Memória explícita:
- episódica;
- semântica.
Memória implícita:
- procedimento;
- condicionamento clássico;
- condicionamento operante;
- aprendizagem não associativa;
- priming.
Na criança pequena, memória é mais sensorial, afetiva, involuntária e ligada à percepção.
A partir de 6–7 anos, a memória começa a se tornar mais lógica, dirigida e organizada.
Alterações quantitativas:
- hipermnésia;
- hipomnésia;
- amnésia.
Alterações qualitativas:
- ilusões mnêmicas;
- alucinações mnêmicas;
- fabulação;
- criptomnésia;
- ecmnésia;
- déjà vu;
- jamais vu.
Esquema de revisão rápida
Atenção
Função: selecionar estímulos e orientar a consciência.
Formas: Espontânea: capturada pelo estímulo. Voluntária: dirigida pelo sujeito. Concentração: atenção mantida.
Tipos: Seletiva: foca e ignora distrações. Vigilância: espera passiva por sinal. Sondagem: busca ativa. Dividida: duas tarefas ou mais.
Alterações: Aprosexia: ausência total. Hipoprosexia: redução. Hiperprosexia: excesso de atenção espontânea. Hipermetamorfose: captura por qualquer estímulo. Distraibilidade: perda de concentração.
Memória
Etapas: Fixação → conservação → evocação → reconhecimento.
Tipos: Sensorial: menos de 1 segundo. Curto prazo/trabalho: segundos a minutos. Longo prazo: permanente.
Longo prazo explícita: Episódica e semântica.
Longo prazo implícita: Procedimento, condicionamentos, aprendizagem não associativa e priming.
Alterações: Hipermnésia, hipomnésia, amnésias e paramnésias.
Roteiro de podcast / aula falada
Hoje vamos revisar o capítulo sobre atenção e memória.
Esse capítulo é muito importante para a psiquiatria da infância e adolescência, porque atenção e memória aparecem o tempo todo na prática clínica: na criança com TDAH, na criança com dificuldade escolar, no TEA, na deficiência intelectual, nos quadros ansiosos, depressivos, neurológicos e até em estados confusionais.
A primeira função estudada é a atenção.
A atenção pode ser entendida como a orientação da atividade psíquica para algo que está sendo experimentado. É ela que seleciona o que vai entrar no campo da consciência.
Pense assim: o ambiente oferece muitos estímulos ao mesmo tempo. Há sons, imagens, movimentos, pensamentos, sensações internas e emoções. A atenção funciona como um filtro, escolhendo o que será processado naquele momento.
Por isso, atenção está muito ligada à consciência. Se a consciência está turva, rebaixada ou confusa, a atenção também se prejudica. E, se a atenção está prejudicada, a memória também pode falhar, porque a informação nem chega a ser fixada adequadamente.
O capítulo diferencia atenção espontânea e atenção voluntária.
A atenção espontânea é capturada pelo estímulo. Não exige esforço. A criança olha porque algo chamou sua atenção: uma tela, um videogame, uma luz, um som, uma novidade.
A atenção voluntária é diferente. Ela exige direção ativa, esforço e controle. É a atenção necessária para estudar, ouvir a professora, fazer tarefa, seguir instruções ou terminar uma atividade pouco interessante.
Esse ponto é essencial no TDAH.
Muita gente diz: “mas ele fica horas no videogame, então não pode ter TDAH”. Isso é um erro. O videogame captura atenção espontânea, oferece recompensa imediata, novidade, estímulo visual e desafio constante. O prejuízo do TDAH aparece principalmente na atenção voluntária, na concentração sustentada, na organização e no controle executivo.
Quando a atenção voluntária se mantém de forma persistente, chamamos de concentração ou tenacidade.
Depois o capítulo traz tipos de atenção.
A atenção seletiva é a capacidade de focar em determinados estímulos e ignorar outros. Por exemplo: ouvir a professora apesar do barulho.
A vigilância é uma espera passiva por um estímulo que pode surgir a qualquer momento.
A sondagem é uma busca ativa por um estímulo específico, como procurar uma figura escondida.
A atenção dividida é a capacidade de dividir o foco entre duas ou mais tarefas, como copiar e ouvir ao mesmo tempo.
Na parte de neurociências, o capítulo cita o hemisfério cerebral direito, importante para manutenção do alerta, e o sistema noradrenérgico, especialmente a partir do locus coeruleus. Também aparecem regiões parietais, colículo superior e áreas frontais.
Na prova, guarde: atenção depende de alerta, seleção, redes frontais e parietais, hemisfério direito e noradrenalina.
Agora vamos aos distúrbios da atenção.
A aprosexia é a ausência total de atenção. É grave. Pode aparecer em quadros confusionais, turvação da consciência, agitação intensa, infecções, febre e coma.
A hipoprosexia é a redução da atenção, principalmente da concentração. A atenção fica superficial, pobre, instável e facilmente desviada. Em crianças, aparece em TDAH, fadiga, tédio, sonolência, deficiência intelectual e TEA.
Aqui há uma pegadinha: TDAH, deficiência intelectual e TEA podem todos ter prejuízo atencional, mas por mecanismos diferentes. Então não devemos concluir comorbidade automaticamente.
A hiperprosexia é o aumento da atenção espontânea com diminuição da atenção voluntária. A criança se orienta para muitos estímulos, mas não consegue manter o foco. Pode ocorrer no TDAH, na mania ou em fases de exploração normal da infância.
A hipermetamorfose é uma forma intensa de atenção espontânea aumentada. Qualquer estímulo do ambiente interrompe a atividade que estava em curso.
A distraibilidade é a perda da capacidade de manter a atenção voluntária. Pode ocorrer por fadiga, baixa motivação, desinteresse, problemas afetivos, sonolência ou TDAH.
Na semiologia da atenção, podemos usar retenção de dígitos, cálculos simples, completar figuras e brincadeiras. Em crianças pequenas, os brinquedos são muito úteis: sequência de lápis de cor, figuras sobrepostas, imagens com algo escondido.
Agora passamos para a memória.
A memória é uma função fundamental para a vida intelectual. Sem memória, não há aprendizagem, nem inteligência organizada, nem continuidade do Eu.
O capítulo organiza a memória em quatro etapas: fixação, conservação, evocação e reconhecimento.
A fixação é o registro da informação. Depende de consciência, atenção, concentração, interesse, motivação e afeto.
A conservação é a manutenção da informação fixada.
A evocação é recuperar uma lembrança.
O reconhecimento é identificar aquela lembrança como pertencente a algo vivido anteriormente.
Então, quando uma criança parece ter “memória ruim”, precisamos perguntar: o problema é de fixação? De evocação? De reconhecimento? Ou, antes disso, é uma falha de atenção?
Do ponto de vista cognitivo, o capítulo divide a memória em memória sensorial, memória de curto prazo ou de trabalho e memória de longo prazo.
A memória sensorial é muito breve, dura menos de um segundo. É ligada à percepção imediata e depende muito da atenção.
A memória de curto prazo, ou memória de trabalho, dura segundos a poucos minutos. Ela mantém informações temporariamente para realizar tarefas. É essencial para aprendizagem, planejamento e tomada de decisões.
O modelo de Baddeley divide a memória de trabalho em alça fonológica, componente visuoespacial e executivo central. A alça fonológica guarda informações verbais. O componente visuoespacial guarda imagens e localização espacial. O executivo central coordena tudo isso e direciona a atenção.
A memória de longo prazo é mais permanente e pode ser explícita ou implícita.
A memória explícita é consciente e verbalizável. Divide-se em episódica e semântica.
A memória episódica é autobiográfica. Envolve vivências pessoais no tempo e no espaço. Por exemplo: “quando você foi à casa da sua avó?”
A memória semântica é conhecimento geral. Por exemplo: “quem descobriu o Brasil?”
A memória implícita é automática. Envolve habilidades e aprendizagens que nem sempre conseguimos verbalizar.
Aqui entram memória de procedimento, condicionamento clássico, condicionamento operante, aprendizagem não associativa e priming.
A memória de procedimento é saber como fazer algo: andar de bicicleta, montar quebra-cabeça, dirigir.
O condicionamento clássico envolve associação entre estímulos. Ajuda a entender medos aprendidos e alguns quadros fóbicos.
O condicionamento operante depende das consequências. Reforço aumenta comportamento; punição reduz. O capítulo usa isso para pensar situações infantis, como insônia ligada a hábitos parentais.
A aprendizagem não associativa envolve diminuição da resposta a estímulos repetidos. Um exemplo clínico: pais ameaçam repetidamente, mas nunca cumprem; a criança aprende que aquela ameaça não tem consequência.
O priming é a pré-ativação. Quando a criança já foi exposta a um estímulo, reconhece esse estímulo mais facilmente depois.
Depois o capítulo fala do desenvolvimento da memória.
No período sensório-motor, a memória é muito ligada à sensação, ao prazer, ao desprazer e à experiência corporal. Por volta dos 12 meses, com as primeiras palavras, a criança começa a armazenar sons e significados.
A memória propriamente simbólica aparece com mais clareza a partir da função semiótica, por volta dos 18 meses.
No início do segundo ano, a criança já tem imagens representativas. O mundo deixa de ser uma sucessão caótica de impressões e vai se tornando mais ordenado.
Até cerca de 6 anos, a memória é ampla, mas pouco seletiva, muito involuntária e difícil de dirigir. A partir de 6 a 7 anos, com as operações concretas, ela se torna mais lógica e organizada.
Agora entram as alterações da memória.
As alterações quantitativas incluem hipermnésia, hipomnésia e amnésia.
Hipermnésia é a evocação de lembranças com maior vivacidade ou riqueza de detalhes. Mas não significa necessariamente aumento real da memória; pode ser maior facilidade de evocação em eventos afetivamente intensos.
Hipomnésia é a redução do número de lembranças que podem ser evocadas.
Amnésia é a perda de memória.
A amnésia anterógrada é a dificuldade de fixar fatos depois da causa do distúrbio.
A amnésia retrógrada é a perda de memória para fatos anteriores ao evento.
A amnésia retroanterógrada compromete fixação e evocação ao mesmo tempo.
As amnésias sistematizadas atingem lembranças específicas, como nomes ou acontecimentos.
As amnésias catatímicas são esquecimentos ligados a conteúdos afetivamente carregados.
Depois vêm as paramnésias, que são alterações qualitativas.
Ilusão mnêmica é uma lembrança real deformada por elementos falsos.
Alucinação mnêmica é uma falsa lembrança criada, sem base real.
Fabulação é uma invenção tomada como lembrança, geralmente preenchendo lacunas de memória. É clássica da síndrome de Korsakoff.
Criptomnésia é quando uma lembrança aparece como ideia nova.
Ecmnésia é quando o passado é revivido como presente.
Déjà vu é a sensação de familiaridade diante de algo novo. Jamais vu é o estranhamento diante de algo familiar. Podem ocorrer em pessoas sem psicopatologia, em ansiedade e em epilepsia de lobo temporal.
Para terminar: na criança, tanto atenção quanto memória precisam ser avaliadas de forma lúdica, concreta e compatível com o desenvolvimento.
Não basta perguntar se a criança lembra ou se presta atenção. É preciso observar, brincar, testar, comparar com a idade e entender se a dificuldade é atencional, mnêmica, cognitiva, emocional, neurológica ou ambiental.
A frase final para guardar é:
Atenção seleciona a experiência; memória fixa, conserva, evoca e reconhece essa experiência. Na infância, ambas dependem do desenvolvimento cognitivo, da afetividade, da consciência e do contexto.
