Capítulo 5

Capítulo 5 — Sensopercepção

Livro: Semiologia na Infância e AdolescênciaFrancisco Baptista Assumpção Junior

A sensopercepção é o processo pelo qual o indivíduo recebe estímulos, organiza essas informações e atribui significado a elas.

Podcast do capítulo

1. Ideia central do capítulo

A sensopercepção é o processo pelo qual o indivíduo recebe estímulos, organiza essas informações e atribui significado a elas.

Ela não depende apenas dos órgãos dos sentidos. Depende também de:

  • atenção;
  • memória;
  • consciência;
  • afetividade;
  • desenvolvimento cognitivo;
  • integridade neurológica;
  • contexto;
  • relação entre objetividade e subjetividade.

Em outras palavras: perceber não é simplesmente “ver”, “ouvir” ou “sentir”. Perceber é reconhecer, discriminar, interpretar e dar significado ao estímulo.

Na infância, isso é ainda mais importante porque a percepção está em desenvolvimento e pode ser influenciada pela fantasia, pelo medo, pela imaturidade cognitiva e por alterações do neurodesenvolvimento.

2. Diferença entre impressão, sensação e percepção

O capítulo organiza o processo sensoperceptivo em etapas.

Impressão

A impressão é a modificação inicial produzida pelo estímulo no órgão sensorial.

Exemplo: a luz atinge a retina e estimula cones e bastonetes.

É a etapa mais periférica, ligada diretamente ao órgão atingido.

Sensação

A sensação é a projeção dessa impressão para estruturas cerebrais.

Ou seja, o estímulo captado pelo órgão sensorial segue por vias nervosas até áreas cerebrais específicas.

Exemplo: estímulo visual chegando ao lobo occipital.

Percepção

A percepção é o reconhecimento e a interpretação da sensação.

Envolve:

  • identificação;
  • discriminação;
  • reconhecimento;
  • localização espacial;
  • localização temporal;
  • significado;
  • relação com experiências anteriores.

Então, se a criança vê um objeto, não basta que seus olhos funcionem. Ela precisa reconhecer o que é, diferenciar de outros objetos, situar no espaço e atribuir significado.

3. Sensações primárias e secundárias

O capítulo diferencia:

Sensações primárias

Vêm de estímulos exteriores.

Exemplo: ver uma luz, ouvir um som, sentir uma textura.

Sensações secundárias

Vêm da vida subjetiva, sem estarem ligadas diretamente a um estímulo externo.

Aqui já começamos a entrar em fenômenos mais próximos de imagens internas, representações e experiências subjetivas.

4. Percepção como encontro entre objetividade e subjetividade

Um ponto central do capítulo é que a percepção nunca é uma cópia perfeita do mundo externo.

Ela resulta do encontro entre:

objetividade — aquilo que está no mundo; subjetividade — estado afetivo, memória, expectativa, medo, desejo, atenção e experiência prévia.

Por isso, duas pessoas podem perceber a mesma situação de formas diferentes.

Na criança, isso é ainda mais evidente. Medo, fantasia, pensamento mágico e imaturidade do juízo de realidade podem modificar muito a percepção.

5. Leis da percepção

O capítulo cita algumas leis gerais da percepção.

O todo é maior do que a soma das partes

Quando percebemos algo, não percebemos apenas elementos isolados. Organizamos os elementos em uma totalidade com significado.

Exemplo: vemos um rosto, não apenas olhos, nariz e boca separados.

Tendência à estruturação

Os elementos perceptivos tendem a se organizar espontaneamente em formas.

Generalização perceptiva

Quando percebemos uma forma, quase simultaneamente atribuímos significado a ela.

Pregnância

É a tendência de perceber formas mais simples, estáveis, completas e organizadas.

Figura-fundo

Percebemos um objeto como figura em relação a um fundo.

Isso é muito importante para leitura, escrita, organização visuoespacial e aprendizagem.

6. Condições para o ato sensoperceptivo

Para que a percepção aconteça adequadamente, são necessários alguns elementos.

Objeto presente

A percepção propriamente dita exige um objeto presente na experiência sensível.

Isso diferencia percepção real de representação mental, imaginação ou alucinação.

Integridade dos órgãos sensoriais e áreas cerebrais

É preciso que o órgão sensorial e as vias cerebrais estejam preservados.

Alterações podem gerar:

  • agnosias;
  • cegueira psíquica;
  • surdez psíquica;
  • anosmia;
  • dificuldade de reconhecimento tátil, como alteração da estereognosia.

Consciência corporal

O capítulo também inclui a consciência do Eu físico, a cenestesia e a sensibilidade geral e profunda, ligadas a sistemas osteomuscular e labiríntico.

7. Alterações quantitativas da percepção

Antes de pensar em psicopatologia, o capítulo lembra que é preciso excluir alterações neurológicas e sensoriais primárias, como:

  • analgesia;
  • anestesia;
  • hipoacusia;
  • surdez;
  • cegueira;
  • anosmia.

As alterações quantitativas podem ser de diminuição ou aumento.

Diminuição dos processos perceptivos

Pode variar de redução leve até abolição completa do comportamento perceptivo.

Pode ocorrer em:

  • estados depressivos;
  • esquizofrenia;
  • intoxicações;
  • sono;
  • coma profundo;
  • disfunções de órgãos sensoriais;
  • afecções do sistema nervoso central.

Podem surgir alterações específicas, como distorções de cores e sons, alterações visuais e fenômenos sinestésicos.

Aumento dos processos perceptivos

Pode aparecer em:

  • excitação psíquica ou emocional;
  • pródromos de epilepsia;
  • hipertireoidismo;
  • intoxicações agudas;
  • transtornos do desenvolvimento, incluindo autismo;
  • doenças metabólicas na infância.

Aqui o sujeito percebe estímulos com intensidade aumentada ou fica excessivamente sensível ao ambiente.

8. Imagem perceptiva real

Antes de diferenciar ilusão e alucinação, o capítulo descreve a imagem perceptiva real.

Ela tem algumas características:

Nitidez

A imagem é clara e bem delimitada.

Corporeidade

A imagem é viva, sensível, “corpórea”.

Estabilidade

A percepção se mantém estável enquanto o objeto está presente.

Extrojeção

A imagem é percebida fora dos limites do Eu, no mundo externo.

Ininfluenciabilidade voluntária

A percepção não muda apenas porque a pessoa quer.

Exemplo: se vejo uma cadeira na sala, não consigo simplesmente “deixar de vê-la” por vontade.

9. Imagens pós-sensoriais

São imagens que permanecem por algum tempo depois que o objeto foi retirado.

Exemplo: olhar para uma luz forte e, depois de fechar os olhos, ainda perceber uma imagem luminosa.

O capítulo aproxima esse fenômeno dos flashbacks do TEPT, quando há revivescência de uma experiência traumática.

10. Imagens representativas ou mnêmicas

São imagens que revivem na memória uma experiência sensorial sem que o objeto esteja presente.

Elas são menos nítidas, menos claras e mais influenciáveis pela vontade do que uma percepção real.

Exemplo: lembrar mentalmente da imagem de uma casa onde você morou.

11. Imagens fantásticas ou fabulatórias

São criações livres da imaginação.

Não correspondem a uma experiência sensorial real e, em geral, não são aceitas pelo juízo de realidade.

Na criança, são comuns no período pré-operatório, como:

  • amigos imaginários;
  • histórias fantásticas;
  • brincadeiras simbólicas;
  • personagens invisíveis.

Isso não é, por si só, psicopatológico.

Ponto de prova:

Na criança pequena, fantasia e imaginação não devem ser confundidas automaticamente com psicose ou alucinação.

12. Imagens oníricas

São imagens compostas por elementos mnêmicos e fantásticos, aceitas momentaneamente pelo juízo de realidade em contexto de turvação da consciência.

Têm características como:

  • plasticidade;
  • mobilidade;
  • ilogismo;
  • introjeção;
  • atemporalidade.

Na infância, podem aparecer em quadros sintomáticos, especialmente delirium febril, quadros tóxicos ou infecciosos, com desorientação, falsos reconhecimentos e alterações visuais.

13. Eidetismo

O eidetismo é a visualização de figuras ou objetos que foram apresentados por alguns segundos e retirados, mantendo-se projetados no espaço objetivo.

Seria uma espécie de “imagem fotográfica”.

O capítulo menciona que alguns quadros do espectro autista, especialmente aqueles com habilidades muito específicas de memória visual, podem lembrar esse tipo de fenômeno. Mas ressalta que, pela própria dificuldade de exploração fenomenológica nesses quadros, é difícil afirmar com precisão.

14. Pareidolias

As pareidolias são imagens fantásticas construídas com base em elementos sensoriais reais e influenciadas pela vontade.

Exemplo: a criança olha para nuvens e vê carneirinhos, monstros, rostos ou figuras.

Isso é comum na infância e não é patológico.

Diferença importante:

Pareidolia: há estímulo real ambíguo + imaginação + juízo de realidade preservado. Alucinação: não há objeto real correspondente e há maior convicção perceptiva.

15. Ilusões

As ilusões são percepções deformadas de um objeto real e presente.

A pessoa percebe algo que existe, mas de forma distorcida.

Podem ocorrer por:

  • inatenção;
  • fadiga;
  • sugestão;
  • catatimia;
  • medo;
  • estados emocionais intensos.

Exemplo do capítulo: uma criança com medo no escuro pode ver roupas, árvores ou sombras como monstros.

Esse é um exemplo de ilusão catatímica, isto é, uma ilusão influenciada pelo afeto.

Ponto de prova:

Na ilusão, existe objeto real. Na alucinação, não há objeto externo correspondente.

16. Alterações qualitativas da percepção

O capítulo cita alterações ligadas a erros de espaço, tempo e outras categorias.

Micropsias

Os objetos são percebidos menores do que são.

Macropsias

Os objetos são percebidos maiores do que são.

Dismegalopsias

Partes dos objetos são percebidas aumentadas, diminuídas ou distorcidas.

Essas alterações podem ocorrer em:

  • quadros infecciosos;
  • quadros tóxicos;
  • crianças e adolescentes;
  • esquizofrenia de início precoce;

- alguns transtornos do espectro autista, com sensação de estranheza do mundo percebido.

17. Alucinações

A alucinação é descrita como percepção sem objeto.

As características gerais são:

  • clareza;
  • certeza;
  • espacialidade.

O paciente vivencia a alucinação como algo com qualidade perceptiva e realidade objetiva.

Na criança, o capítulo ressalta que alucinações são pouco frequentes e devem ser avaliadas com muito cuidado. A literatura pode citar quadros a partir de 5–6 anos, mas o texto sugere maior cautela, considerando esquizofrenia de início muito precoce a partir dos 8 anos e esquizofrenia de início precoce a partir dos 11 anos.

18. Tipos de alucinação

Alucinações auditivas

Podem ser:

  • acoasmas: ruídos indeterminados;
  • fonemas: palavras ou frases.

Na criança, os ruídos podem aparecer em quadros de déficit sensorial. Já vozes com palavras ou frases são mais relacionadas a quadros psicóticos, como esquizofrenia de início precoce.

O capítulo também cita fenômenos como:

  • eco do pensamento;
  • vozes bilaterais antagônicas.

Alucinações visuais

Podem ser elementares, como luzes ou fotopsias, ou complexas, como pessoas, figuras e objetos.

As elementares costumam estar mais ligadas a quadros orgânicos, neurológicos ou sensoriais.

As complexas aparecem mais em quadros psicóticos ou sintomáticos.

O capítulo também cita fenômenos raros, como:

  • palavras escritas vistas no espaço;
  • alucinações extracampinas;
  • autoscopia;
  • alucinações reflexas.

As alucinações hipnagógicas ocorrem na transição entre sono e vigília e geralmente não são reconhecidas como imagens reais. Na infância são mais facilmente observáveis e não significam necessariamente psicose.

Alucinações táteis ou hápticas

Podem ser ativas ou passivas.

O capítulo relata maior observação em adolescentes, especialmente em quadros de esquizofrenia ou dissociativos.

Alucinações gustativas e olfativas

São raras, mas podem aparecer em quadros psicóticos, como gosto ou cheiro alterado em alimentos ou no ambiente.

Clinicamente, uma criança ou adolescente que recusa alimento de forma muito incomum pode exigir investigação de fenômenos gustativos ou olfativos.

Alucinações cenestésicas ou de sensibilidade interna

Envolvem sensações internas corporais, às vezes genitais, e são citadas em adolescentes com quadros dissociativos.

Alucinações musculares, cinestésicas e de sentido geral

O capítulo menciona fenômenos como levitação, alterações de localização espacial, sensação de movimento, falsas sensações térmicas ou de umidade, mas afirma que não foram observadas pelo autor em crianças e adolescentes.

19. Pseudoalucinações

As pseudoalucinações são representações mentais, ideias ou imagens percebidas pelo paciente como estranhas à sua realidade, mas com as quais ele se relaciona como se fossem objetos reais.

Elas ficam em uma zona intermediária entre representação interna e percepção patológica.

Para prova, vale lembrar:

Alucinação tem espacialidade externa e convicção perceptiva. Pseudoalucinação tem caráter mais interno/subjetivo, embora seja vivida como estranha e impactante.

20. Semiologia da percepção na criança

O capítulo destaca que perguntas diretas sobre alucinações têm valor limitado em crianças.

A criança pode:

  • não entender a pergunta;
  • responder o que acha que o adulto espera;
  • considerar a pergunta estranha;
  • falsear a informação;
  • confundir fantasia, sonho, medo e percepção.

Por isso, a observação do comportamento é fundamental.

Sinais indiretos de possível alteração perceptiva

Observar:

  • mudança súbita do foco atencional;
  • virar a cabeça como se estivesse vendo ou ouvindo algo;
  • solilóquios;
  • olhar fixo em determinada direção;
  • desvio súbito e incompreensível ao observador;
  • risos imotivados;
  • recusa alimentar incomum;
  • comportamentos bizarros e pouco explicáveis.

Na criança, alterações perceptivas estão frequentemente ligadas a distúrbios do desenvolvimento, e não apenas a psicose.

21. Avaliação da percepção tátil

O tato é talvez o sentido mais utilizado pela criança, mesmo que ela tenha pouca consciência disso.

A avaliação pode incluir:

Discriminação de texturas

Usar tecidos e materiais diferentes:

  • lã;
  • seda;
  • veludo;
  • lixas;
  • plásticos;
  • papéis.

Discriminação de formas

Usar formas como:

  • quadrados;
  • triângulos;
  • círculos;
  • retângulos.

Discriminação de tamanhos

Usar dados de diferentes tamanhos ou lápis de tamanhos variados.

Percepção estereognóstica

Pedir que a criança identifique objetos pelo tato, sem ver.

Exemplos:

  • grampos;
  • alfinetes;
  • colheres;
  • dados;
  • bolinhas de gude.

Também podem ser avaliados peso e temperatura.

22. Avaliação da percepção auditiva

A percepção auditiva pode ser examinada por discriminação de ruídos.

O capítulo sugere pequenas latas semelhantes contendo materiais diferentes, como:

  • pregos;
  • feijões;
  • botões;
  • grampos.

A criança deve diferenciar os sons.

23. Avaliação da percepção visual

O capítulo reforça que ver não é apenas enxergar. É preciso reconhecer, discriminar e interpretar o estímulo visual.

Isso tem importância para leitura e escrita. Por exemplo, dificuldade em perceber diferenças entre letras como p/q ou b/d pode impactar aprendizagem.

Itens avaliados:

  • reconhecimento de objetos;
  • reconhecimento de cores;
  • reconhecimento de formas;
  • reconhecimento de tamanhos;
  • figura-fundo;
  • posição espacial;
  • distância.

Exemplos:

  • dentro/fora;
  • frente/atrás;
  • direita/esquerda;
  • primeiro/segundo/terceiro/último;
  • longe/perto;
  • próximo/distante.

O capítulo também cita o teste de duplo cancelamento de Zazzo para avaliar inexatidão perceptiva e atenção.

Nos quadros de TEA, pode-se utilizar o teste de faces de Baron-Cohen para avaliação qualitativa do reconhecimento facial. Já o teste de Benton pode ser útil para prosopagnosia.

Pontos principais para prova

1. Sensopercepção envolve atenção e memória

Não é só função sensorial periférica.

2. Impressão, sensação e percepção não são sinônimos

Impressão: estímulo no órgão sensorial. Sensação: condução e projeção cerebral. Percepção: identificação, discriminação, reconhecimento e significado.

3. Percepção mistura objetividade e subjetividade

Afeto, medo, desejo, atenção e memória modificam a percepção.

4. Na criança, fantasia não é psicose

Amigos imaginários, brincadeiras simbólicas e pareidolias podem ser normais.

5. Pareidolia não é patológica

A criança vê formas em nuvens, sombras ou objetos ambíguos, com base sensorial real.

6. Ilusão tem objeto real

É uma deformação de algo presente.

7. Alucinação não tem objeto real

É percepção sem objeto, com clareza, certeza e espacialidade.

8. Alucinações em crianças são raras

Devem ser avaliadas com cautela, considerando idade, desenvolvimento, sono, febre, intoxicação, epilepsia, TEA, trauma e psicose.

9. Hipnagógicas não significam necessariamente psicose

Ocorrem na transição sono-vigília.

10. Alterações visuais elementares sugerem mais quadro orgânico/sensorial

Luzes, fotopsias e formas simples exigem pensar em neurologia, intoxicação, epilepsia, febre etc.

11. Recusa alimentar incomum pode levantar hipótese perceptiva

Especialmente se houver suspeita de alteração gustativa ou olfativa.

12. Avaliação da percepção infantil deve ser concreta e lúdica

Usar objetos, texturas, sons, figuras, formas, tamanhos e brincadeiras.

Esquema de revisão rápida

Sensopercepção

Impressão: órgão sensorial. Sensação: vias nervosas e cérebro. Percepção: reconhecimento e significado.

Imagens mentais

Perceptiva real: nítida, corpórea, estável, externa, não modificável pela vontade. Pós-sensorial: permanece após retirada do estímulo. Mnêmica: lembrança sensorial sem objeto. Fantástica: imaginação. Onírica: sonho/turvação da consciência. Eidética: imagem tipo fotográfica. Pareidolia: fantasia sobre estímulo real ambíguo. Ilusão: objeto real deformado. Alucinação: percepção sem objeto. Pseudoalucinação: representação interna estranha à realidade do paciente.

Alterações quantitativas

Diminuição perceptiva. Aumento perceptivo.

Alterações qualitativas

Micropsia. Macropsia. Dismegalopsia. Ilusões. Alucinações. Pseudoalucinações.

Tipos de alucinação

Auditivas. Visuais. Táteis. Gustativas. Olfativas. Cenestésicas. Cinestésicas. Musculares. Sentido geral.

Roteiro de podcast / aula falada

Hoje vamos revisar o capítulo sobre sensopercepção.

Esse capítulo é importante porque ele ajuda a diferenciar fenômenos que, na prática clínica, podem ser confundidos: fantasia, ilusão, pareidolia, alucinação, pseudoalucinação, alterações perceptivas do autismo, fenômenos relacionados ao sono e alterações por febre, intoxicação ou epilepsia.

A primeira ideia é que sensopercepção não é apenas sentir ou enxergar. Ela envolve atenção, memória, consciência, afetividade e desenvolvimento cognitivo.

Quando uma criança percebe algo, ela não apenas recebe um estímulo. Ela seleciona, organiza, reconhece e atribui significado. Por isso, a percepção nunca é uma cópia perfeita da realidade. Ela sempre mistura o objeto externo com a subjetividade da criança.

O capítulo diferencia impressão, sensação e percepção.

A impressão é o primeiro impacto do estímulo no órgão sensorial. Por exemplo, a luz atingindo a retina.

A sensação é a condução dessa impressão para o sistema nervoso, chegando às áreas cerebrais.

A percepção é a etapa mais elaborada: é quando o sujeito reconhece, discrimina e interpreta aquilo que foi sentido.

Então, ver não é apenas enxergar. Ver é reconhecer o objeto, entender onde ele está, diferenciá-lo de outros e atribuir significado.

A percepção depende também de leis gerais. O todo é maior que a soma das partes. Percebemos formas organizadas, não apenas elementos isolados. Também existe tendência à estruturação, à generalização, à figura-fundo e à pregnância, isto é, a perceber formas mais estáveis, completas e organizadas.

Na infância, isso é muito importante para aprendizagem. Uma criança com dificuldade de figura-fundo, posição espacial ou discriminação visual pode ter dificuldades em leitura e escrita, por exemplo para diferenciar letras como b e d ou p e q.

Depois, o capítulo descreve a imagem perceptiva real.

Uma percepção real tem nitidez, corporeidade, estabilidade, extrojeção e não depende da vontade.

Ou seja: ela é clara, viva, estável, percebida no mundo externo e não muda apenas porque a pessoa quer.

A partir daí, o capítulo compara outros tipos de imagens.

As imagens pós-sensoriais são aquelas que permanecem após a retirada do estímulo. Por exemplo, olhar para uma luz forte e continuar vendo a imagem depois de fechar os olhos. O capítulo aproxima esse fenômeno dos flashbacks no TEPT.

As imagens representativas ou mnêmicas são imagens de memória. Elas revivem uma experiência sensorial sem que o objeto esteja presente. São menos nítidas e mais influenciáveis pela vontade.

As imagens fantásticas ou fabulatórias são criações livres da imaginação. Na criança, isso é muito comum. Amigos imaginários e personagens de brincadeira, especialmente no período pré-operatório, não significam psicose.

As imagens oníricas aparecem em contextos de turvação da consciência, como delirium febril ou quadros tóxicos e infecciosos. Misturam memória, fantasia e perda momentânea do juízo de realidade.

O eidetismo é uma espécie de imagem fotográfica. A pessoa continua visualizando algo que foi apresentado por poucos segundos. O capítulo menciona que alguns quadros do espectro autista com habilidades específicas podem lembrar esse fenômeno, mas é difícil explorar isso fenomenologicamente.

Depois temos a pareidolia.

Pareidolia é ver formas significativas em estímulos reais e ambíguos. Por exemplo, a criança olha para as nuvens e vê carneirinhos, rostos ou monstros.

Isso não é patológico. Há um estímulo real e há participação da imaginação.

Agora vem uma diferença fundamental para prova: ilusão versus alucinação.

Na ilusão, existe um objeto real, mas ele é percebido de forma deformada. Por exemplo, no escuro, uma criança com medo vê uma roupa pendurada e acha que é um monstro. Existe a roupa, mas o medo altera a percepção.

Na alucinação, não existe objeto real. É uma percepção sem objeto.

As ilusões podem ocorrer por inatenção, fadiga, sugestão ou catatimia. Catatimia significa que o afeto modifica a percepção. O medo, por exemplo, pode transformar sombras em monstros.

O capítulo também fala de alterações qualitativas, como micropsia, macropsia e dismegalopsia.

Na micropsia, os objetos parecem menores. Na macropsia, parecem maiores. Na dismegalopsia, partes do objeto parecem distorcidas. Isso pode aparecer em quadros infecciosos, tóxicos, neurológicos, esquizofrenia de início precoce e também em alguns transtornos do espectro autista como sensação de estranheza do mundo percebido.

Agora vamos para as alucinações.

A alucinação é percepção sem objeto, com clareza, certeza e espacialidade.

Mas, em crianças, é preciso muito cuidado. Alucinações são pouco frequentes e não devem ser diagnosticadas rapidamente. A criança pode estar brincando, fantasiando, sonhando, com medo, febril, intoxicada, em transição sono-vigília, ou pode não entender a pergunta.

As alucinações auditivas podem ser ruídos indeterminados, chamados acoasmas, ou palavras e frases, chamadas fonemas. Em crianças, ruídos podem ocorrer em déficits sensoriais. Vozes organizadas sugerem maior preocupação com psicose, especialmente esquizofrenia de início precoce.

As alucinações visuais podem ser simples, como luzes e formas, ou complexas, como pessoas e objetos. As simples costumam sugerir mais quadros orgânicos, sensoriais, neurológicos ou intoxicações. As complexas aparecem em quadros psicóticos ou sintomáticos.

Há também alucinações hipnagógicas, que ocorrem entre sono e vigília. Elas não significam necessariamente psicose.

As alucinações táteis, gustativas, olfativas e cenestésicas são mais raras. No caso de alucinações gustativas ou olfativas, uma pista clínica pode ser recusa alimentar incomum ou queixas de gosto ou cheiro alterado.

O capítulo também menciona pseudoalucinações, que são representações internas estranhas à realidade do paciente, vividas com impacto, mas com caráter mais interno do que a alucinação verdadeira.

Na semiologia da criança, perguntas diretas têm valor limitado. A criança pode não entender, pode responder o que acha que o adulto espera, pode misturar fantasia com realidade ou pode se assustar com a pergunta.

Então, devemos observar comportamento.

Sinais importantes são: virar a cabeça como se ouvisse ou visse algo, olhar fixo, solilóquios, risos imotivados, mudança súbita do foco atencional, recusa alimentar incomum e comportamentos bizarros sem explicação.

A avaliação deve ser lúdica e concreta.

Para percepção tátil, usamos texturas, formas, tamanhos e objetos para reconhecimento pelo tato.

Para percepção auditiva, usamos latas com materiais diferentes, como feijões, botões, pregos ou grampos, para discriminar sons.

Para percepção visual, avaliamos reconhecimento de objetos, cores, formas, tamanhos, figura-fundo, posições e distância.

Também podem ser usados testes como duplo cancelamento de Zazzo, teste de faces de Baron-Cohen em TEA e teste de Benton para prosopagnosia.

A frase final para guardar é:

Na criança, sensopercepção deve ser avaliada considerando desenvolvimento, fantasia, afetividade, consciência, sono, febre, epilepsia, intoxicação, alterações sensoriais, TEA e psicose. Nem toda experiência estranha é alucinação.